Folhetim | Casa de Hóspedes (3º. Episódio)

FOLHETIM | Uma rubrica de Licínia Quitério

CASA DE HÓSPEDES (3º. Episódio)

Quim Zé não voltou ao clube, e a Dona Júlia ficou na casa grande, vazia, sem censuras sobre os pés dos flamingos, sem tantas coisas que lhe encheram os dias, os anos. Passou o tempo do silêncio, o tempo do choro, o tempo de se fechar, tempos outros, todos diferentes, que diferente ela também se tornara.

Uma manhã, ao acordar, o silêncio da casa a pesar, a alongar-se, a enrolar-se-lhe no pescoço, Dona Júlia, num salto brusco, levantou-se da cama, passou a mão pelo rosto a afastar as sombras e disse, em voz alta, só para si mesma, vou encher a casa de hóspedes e comprar um canário.

Depois de tudo colocado nos novos lugares, três quartos ficaram disponíveis para alugar, contando com duas pessoas para o quarto independente. Fez saber, nas lojas mais frequentadas do bairro, a sua intenção de receber hóspedes, de qualquer idade, gente séria como séria fora sempre a sua casa. Poderia fornecer jantares a quem estivesse interessado.

Foi à caixinha de pau-santo que no tampo dizia “Jóias”, em folha de prata batida, forrada de cetim azul, e fez um balanço, à sua maneira, do valor que poderia ter o cordão de ouro de duas voltas, que tinha sido da mãe, a pulseira que o marido lhe comprara, os brincos e o anel de platina, lindos, herança que lhe coube de uma madrinha rica, de muitos afilhados, o colar de pérolas de vidro e mais umas quantas bugigangas. Se dias piores viessem, poderia empenhá-los, vergonha seria roubar, e limpou uma lágrima furtiva.

Sentiu a dureza da vida como nunca imaginara, achou-se um pássaro de asa cortada, o canto perdido. Na primeira noite passada no quarto interior, não conseguiu dormir, assaltada por uma dor muito funda, tão funda que julgava ter-lhe nascido um buraco dentro do peito. A bem dizer, a escuridão do quarto assentava-lhe bem melhor do que o fato negro de viúva que se recusou a usar.

Mal clareou a manhã, foi dar uma volta pela casa, entontecida e cansada pela vigília. Arredou as cortinas da marquise e pensou, falta o canário, naquela parede ali, com o solinho da manhã a dar-lhe nas penas. Seria a primeira compra daquele dia. Seria o primeiro dia de muitos outros, diferentes, assustados, de outras falas com outras gentes, na sua CASA DE HÓSPEDES, como só conhecia dos filmes portugueses, vistos e revistos, com o seu homem, sempre que apareciam nas matinées do CINE REX ou, mais recentemente, aos Domingos, na televisão.

Foi assim, nas voltas da vida e da morte, que Dona Júlia juntou as pedras que sobraram e foi construindo a nova casa, embora a mesma. Na pequenez da sua vida, nas dimensões da casa, foram cabendo outras vidas, de gente vária, de vários sonhos, pequenas ficções da gente simples que os grandes romances não acolhem.

(continua)

Licínia Quitério

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