Folhetim | Casa de Hóspedes (2º. Episódio)

FOLHETIM | Uma rubrica de Licínia Quitério

CASA DE HÓSPEDES (2º. Episódio)

Quim Zé não voltou ao clube, e Dona Júlia ficou na casa grande, vazia, sem censuras sobre os pés dos flamingos, sem tantas coisas que lhe encheram os dias, os anos. Passou o tempo do silêncio, o tempo do choro, o tempo de se fechar, tempos outros, todos diferentes, que diferente ela também se tornara.

Uma manhã, ao acordar, o silêncio da casa a pesar, a alongar-se, a enrolar-se-lhe no pescoço, Dona Júlia, num salto brusco, levantou-se da cama, passou a mão pelo rosto a afastar as sombras e disse, em voz alta, só para si mesma, vou encher a casa de hóspedes e comprar um canário.

Foi preciso comprar dois divãs para o quarto independente e mais um guarda-fato. Tudo em segunda mão, na Casa de Mobílias ANTUNES, LDA, por um preço acessível, por ser para a senhora e em respeito ao falecido, palavras do dono da casa, enquanto contava as notas, humedecendo o polegar com saliva. Com a ajuda de um cunhado, fez as mudanças de móveis mais pesados, nomeadamente a mobília do seu quarto de casada, que passou para o quarto interior. Mais acanhado o espaço, mas coube tudo, assim lhe coubesse um quinhão da alegria de antigamente que a fazia cantarolar enquanto passava a ferro ou cozinhava. Fez saber, nas lojas mais frequentadas do bairro, a sua intenção de receber hóspedes, de qualquer idade, gente séria como séria fora sempre a sua casa. Poderia fornecer jantares a quem estivesse interessado. Se tudo corresse de feição, quatro hóspedes dar-lhe-iam o suficiente para se manter decentemente. Se os hóspedes viessem e quisessem jantar, pensou, teria de comprar um frigorífico maior, mas isso logo se veria.

Foi à caixinha de pau-santo que no tampo dizia “Jóias”, em folha de prata batida, forrada de cetim azul, e fez um balanço, à sua maneira, do valor que poderia ter o cordão de ouro de duas voltas, que tinha sido da mãe, a pulseira que o marido lhe comprara, os brincos e o anel de platina, lindos, herança que lhe coube de uma madrinha rica, de muitos afilhados, o colar de pérolas de vidro e mais umas quantas bugigangas. Se dias piores viessem, poderia empenhá-los, vergonha seria roubar, e limpou uma lágrima envergonhada.

Sentiu a dureza da vida como nunca imaginara, achou–se um pássaro de asa cortada, o canto perdido. Na primeira noite passada no quarto interior, não conseguiu dormir, assaltada por uma dor muito funda, tão funda que julgava ter-lhe nascido um buraco dentro do peito. A bem dizer, a escuridão do quarto assentava-lhe bem, melhor do que o fato negro de viúva que se recusou a usar.

(continua)

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