Crónica de Alexandre Honrado | Viva Bolsonaro!

VIVA BOLSONARO!

 

Que nada nos defina. Que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa própria substância.

Simone de Beauvoir

 

A História é uma espécie de jogo infantil e que só faz algum sentido quando todas as peças se encaixam e o boneco acaba por ser funcional, agradável à vista, lúdico e capaz de nos entreter.

A História é sempre uma reescrita – e sofre quase sempre de uma demência intensa, a par com um tipo de Alzheimer sufocante, que reduz a memória coletiva à vergonha de um ponto, desses que aparecem na pele e não são dignos de trazer a publico, uma vergonha de esquecer-se no essencial e de ser capaz de repetir o seu pior.

É por isso que olhando para a História recente intitulo este texto: Viva Bolsonaro! Só vivo poderá ser convenientemente derrotado e encontrar, como outros ditadores, ou projetos de ditador, uma campa interessante para mostrarmos aos nossos filhos o que o mundo às vezes produz, de sórdido, medíocre e manipulador, que seria digno de uma sátira teatral não fosse tão perigoso. Bolsonaro merece viver – para morrer de vergonha com o castigo da História, e não pela força das armas com que prevê matar os outros.

Digo ainda Viva Bolsonaro! porque a criatura me ajudou a recordar que tenho valores – e todos são opostos à falta de valores com que decorou a sua campanha eleitoral.

Não é preciso passar em revista o lado desumano e sórdido dos seus discursos. Ou do ódio com que os proferiu e com que os seus muitos apoiantes os repetiram. Que sim, foi uma campanha de ódio e de recalques, que faz entender como está doente metade da população brasileira.

Tenho muito amigos brasileiros e entre eles muitos que caíram na armadilha, como se tivessem de escolher entre morrer na forca ou diante do pelotão de fuzilamento. Ouvi de tudo, a esses amigos. Argumentos que só com muito esforço posso entender como de fundamentação religiosa – Deus, a existir, mal viu Bolsonaro votou noutro candidato, fosse ele qual fosse -, como de motivação política – Bolsonaro, o pobre, não é exatamente um político, é um fraco militar com uma patente alta de mais para o perfil, que enquanto deputado esteve sempre numa fila recuada da câmara e enquanto candidato não se apresentou aos debates, foi para a urna em carro rodeado de seguranças e votou com um casaco de campanha militar, camuflado verde, grande e mal vestido, que cobria um colete à prova de balas, tal era o terror do candidato “popular”.

Tenho demasiado respeito pelos militares, cuja verticalidade e honra conheço desde menino, e que aprendi a respeitar na família e fora dela, agradecendo-lhe até o meu País de liberdades conquistadas, para aceitar este Bolsonaro fardado.  Bolsorano, aplaudido pelas classes médias e ricos, temido e difamado pelos pobres e minorias, vive camuflado duplamente, sob o seu dólmen de soldadinho na reserva e sob o rótulo de “liberal”. Jair Messias Bolsorano – cuo nome Messias acaba por ser mais um motivo de chacota – combina o pior da ditadura militar brasileira (1964-1985) com a voracidade extrativa do neoliberalismo, essa doença do capitalismo que chegou a matar alguns de nós recentemente. Mas reparem como adocicou o discurso depois de eleito! Como Trump, apelou ao voto dos mais tresloucados e depois refreou-se diante da realidade. E a realidade é que metade do Brasil não votou nele e os deputados que irá encontrar pela frente, desde que a Democracia se mantenha, podem pô-lo no lugar, isto é, podem refrear os seus ódiozinhos de louco à solta e com poder nas mãos.

Não esqueço porém que as ditaduras militares, no Brasil e em Portugal – ou na Espanha, ou na Alemanha… – tiveram sempre na origem fracas figuras. Sempre que um medíocre agarra o poder, as consequências são desastrosas e transcenderam tudo e todos.

Ver Bolsonaro de mão dada a um pastor vestido com uma t-shirt de campanha eleitoral, a orar, ou coisa muito parecida, no momento da vitória, fez-me solidário com todos os crentes, que não frequentam o culto extremista de certos protagonistas.  Viva Bolsonaro!, pois, que me faz agradecer aos que acreditam nas suas religiões sem ódio nem desvios.

O Brasil é um país onde a violência marca presença a começar nos bandos criminosos organizados por detrás de “igrejas”, um país onde os marginais são muitos, onde o crime organizado inclui as milícias que matam as minorias – étnicas, religiosas, sexuais… – , milícias que apoiam o novo presidente e que são associadas ao próprio. Bolsonaro há de desejar ser o “coronel”, à moda antiga, patente aliás que a estrutura militar achou por bem nunca lhe conferir.

Se Dilma mereceu impeachment, Bolsonaro merece um julgamento sério, onde o apelo aos crimes e os crimes que assinou sejam julgados um por um. A começar pelas irregularidades na campanha, das notícias falsas, aos envios de mensagens falsas pelos telemóveis, à difamação, aos atentados às liberdades e à dignidade humana. Há muita matéria para levá-lo ao banco dos réus.

O povo é soberano e votou  nele, dirão. Isso é democracia, dirão. Como foi soberano a votar noutros, dentro e fora do Brasil (Hitler não usurpou o poder, foi sufragado duas vezes e venceu em ambas). Mas Bolsonaro, o Messias Bolsonaro, não é apenas uma figura de opereta pobre, que conseguiu o milagre do poder (como Donald Trump, recentemente, recordam-se?). Não é só a criatura homofóbica, racista, machista, criminosa que se revelou (tal como Trump, teve votos de negros, de mulheres…). É o produto de uma sociedade aterrorizada e sobretudo muito confusa, que acredita numa realidade impossível: viver em paz se todos andarem de arma na mão, estendendo-a e disparando no lugar do desenvolvimento dos afetos ou de uma educação e justiça social efetiva para todos.  Aliás, Bolsonaro defende interesses muito óbvios – que nada se coadunam com o humanismo ou com a ideia de uma equidade para os povos.

Bolsonaro é uma página enodoada da História que regista o mundo que estamos a ser, inculto, desnorteado, violento, medroso, ávido de populismos e de reality shows, mundo equilibrado numa crosta que a qualquer momento pode quebrar.

Mais: Bolsonaro é um estudo de caso. Pela primeira vez as redes sociais elegem o seu Presidente, com muito juízos de valor e uma enorme capacidade crítica.

É, Bolsonaro, um produto cultural, portanto. E não se pense que a cultura é uma coisa boa. Não é dual, e é má e boa, por vezes ambas. Ela é o espelho, o retrato, o reflexo das nossas distorções e realizações. E quanto mais tortos estamos, menos nos amamos.

Num dos centros comerciais que frequento, uma empregada que serve cafés, brasileira autêntica, gritava com os clientes que tinham opinião contrária à sua: Bolsonaro é o caminho, a pessoa digna. E perguntava-me: se você tivesse uma filha e ela casasse com uma mulher, não seria porque Deus estava a castigá-lo por não ser um bom crente? Essa gente merece a morte! Acrescentava ela aos gritos.

Ela é uma boa amostra de muitos que votaram Bolsonaro: sem amor, sem Deuses misericordiosos, sem a vida – apenas com a morte como solução. E todavia com uma crença qualquer num movimento que lhe apontou o caminho e a fascinou, uma construção de crença qualquer capaz de falar-lhe e de fazer-se entender com os seus desígnios e desejos.

Mas muitos outros que elegeram o pequeno magala de Campinas, estavam só assustados quando foram às urnas. E agiram. Como se Estaline e Hitler fossem as únicas alternativas para o mundo? E o que é feito dos candidatos que amam o Brasil, esses sim, os únicos derrotados em tudo isto? E que é feito de nós, seres humanos, carentes de uma humanidade perdida?

 

Alexandre Honrado

Historiador

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