Ericeira | Festival literário em diálogo com Pessoa e Saramago [Imagens]

Realizou-se ontem na Casa de Cultura da Ericeira, aquela que poderá ser considerada a sessão de enceramento do Festival literário em diálogo com Pessoa e Saramago, uma iniciativa do ICEA – Instituto de Cultura Europeia e Atlântica, uma associação com sede na Ericeira, cuja designação parece pretender defrontar a cultura com uma fronteira geográfico-política.

Fernando Pessoa ocupou o primeiro dia deste festival, o segundo dia foi dedicado à inauguração de uma exposição denominada “Nós, os de Orpheu” e a uma iniciativa do patrocinador (Câmara Municipal de Mafra) denominada “Caminhos e Poesia”.

Ontem, o evento que marcou o encerramento deste festival, recebeu a designação de “Mafra, um concelho de poesia” seguindo assim, de algum modo, o mote do marketing municipal que reza assim, “Mafra é música”, “Mafra é tudo”.

A representar a edilidade, esteve o vereador Hugo Luís e na mesa, gente ligada à cultura e à literatura. Alice Vieira e Alexandre Honrado (distintos colaboradores do Jornal de Mafra), Fernando Pinto do Amaral (professor e poeta) , José Constantino Costa (escritor) e José Fanha (escritor), a moderar, Ana Almeida (professora).

Diálogo muito fácil entre os elementos do painel, tendo por fundo a figura de José Saramago. Ficámos a conhecer o lugar que Mafra ocupa no coração, no pensamento e na escrita de cada um dos elementos do painel, sendo que o coração teve sempre a primazia. Alice Vieira que viveu na Ericeira, paredes meias com José Cardoso Pires e para quem a vila é terra de refúgio, José Fanha, para quem Mafra voa pouco e é muito conservadora, Alexandre Honrado, recordou os tempos em que por ali tinha casa um deputado da assembleia do Estado novo, Casal Ribeiro, que vivia num “bairro de pessoas que não existiam” e que, para que pusesse passear o cão junto à praia, durante a noite, mandou iluminar o local, finalmente, José Constantino Costa, revelou que a sua escrita também passa pela Ericeira, estampada em três dos seus livros.

Assistimos depois à projeção de um pequeno filme que registou a passagem de José Saramago pela Ericeira, uma semana depois de ter ganho a Nobel. Na altura, uma das afirmações marcantes do Nobel, foi a seguinte “O melhor é não falarmos na Câmara de Mafra, não falemos de coisas tristes”, referindo-se à posição tomada por aquele órgão do poder local, em alinhamento com as posições do PSD nacional que então era governo. Cavaco Silva, Sousa Lara – então secretário de estado da cultura – e, localmente, Ministro dos Santos representaram bem a receção dos poderes vigentes ao nosso único Nobel da literatura.

Na última parte desta tertúlia, a questão era a de saber como é que os participantes viam a vida e a obra de Saramago. Fernando Pinto do Amaral, colocou a concessão Nobel a Saramago, como “uma honra para Portugal e para a língua portuguesa”, José Fanha, viu com apreensão o facto de Portugal ser o país da Europa em que menos se lê, em contradição com os excelentes escritores que por aqui fazem prosa e poesia, Alice Vieira revelou que quando surgiu a notícia da concessão do Nobel a Saramago, ambos estavam na Feira de Frankfurt, quando Saramago, algo desagradado com o ambiente da feira, decidiu regressar a Portugal, estando já no aeroporto, quando recebeu a notícia, tendo então sido convencido a regressar à feira, Alexandre Honrado falou de Sousa Lara e das suas posições relativamente Saramago e realçou a importância do IRS (Imaginação – realidade – simbologia) no desenvolvimento das civilizações e na criação literária, enquanto, José Constantino Costa realçou a presença da Ericeira no pensamento de Saramago, expresso nos cadernos de Lanzerote.

Seguiram-se depois algumas intervenções do público, destacando-se a de uma professora residente na Ericeira, apoiante de Elisio Summavielle contra Hélder Silva nas eleições de 2013, que entrou em defesa do actual presidente do PSD, Hélder Silva, afirmando e enaltecendo as sua posição relativamente à importância de José Saramago para o concelho de Mafra.

As iniciativas do ICEA – Instituto de Cultura Europeia e Atlântica, embora se revistam habitualmente de algum interesse no plano da cultura e da história, apresentam-se com alguma aura de hermetismo, movimentando-se num meio relativamente elitista. As suas sessões têm pouco público e pouca polémica, algo que também não ajuda à sua projeção. A divulgação – utilizando  modernos de  métodos de promoção – das suas atividades, nomeadamente, junto da comunidade de professores do concelho, poderiam dar maior projeção a estas iniciativas.

 

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