Crónicas de Jorge C Ferreira | Estes tempos

Estes tempos

Estes tempos de perder mundos e princípios. Este galgar de consciências apodrecidas. Estes sem-fim cada vez mais perto de nós. Vamos andando e falando para quem não nos ouve. Por vezes apetece desistir. Dizem-nos que o tempo é outro. No entanto a terra continua a rodar da mesma maneira. Nós continuamos por cá!

Aparecem pensamentos muito antigos a armar ao novo. Aparecem as botas cardadas. As fardas ensanguentadas. Os capitães do nada. As balelas mal contadas. A força da falsidade. Os pontos cardeais a chamarem-nos à atenção. Um mundo a caminhar para as calotas polares que se vão derretendo. Quero ver o meu gelo azul!

Há quem acredite nos “sound bites” e vá, alegremente, atrás das estafadas mordidelas. Nada a fazer. As pessoas têm outro modo de receber as notícias. Novos meios para as lerem. A notícia no minuto seguinte. A desgraça anunciada. Os milhares de associações que não conseguem responder aos acontecimentos. As contas duvidosas. Em quem acreditar?

Hoje comprei o Jornal da Manhã às três da tarde. O monte que lá ficou por vender era enorme. Cada vez se vende menos o Jornal em papel. Cada vez se olham mais para as manchetes e se lêem menos notícias inteiras. Com isso ganham os artistas das manchetes. A frase descontextualizada que baralha tudo. A morte do artista!

Um primo meu disse-me, no outro dia, da tristeza imensa que sentiu quando, de repente, o jornal que lia há mais de setenta anos deixou de publicar a sua edição diária em papel. As suas manhãs na companhia das notícias e do pequeno-almoço nunca mais foram iguais. As manhãs a morrerem suavemente. Assassínios permitidos! Processos arquivados!

Já assisti ao regresso do vinil. Essas obras de arte a que anunciaram o fim há muitos anos. Tiveram lugar cerimónias fúnebres com direito a missa cantada. Renasceu. É moda. É ouvida a sua música vinda na ponta de um diamante. As pausas. Algum ruído. O disco a rodar. A noite a crescer! Outra maneira de ouvir!

As fotos que não vemos. Os álbuns que acabaram. Um pequeno objecto e todas as fotos guardadas. Tudo visto num ecrã. Tudo a desaparecer no momento seguinte. Perde-se um desses objectos e perde-se o momento, um pedaço de vida. Como se nos ardesse a casa e tudo dentro dela. Uma coisa danada!

Os custos. Sempre o dinheiro. O dinheiro que abunda para uns e para determinadas instituições e falta sempre para outras coisas. Coisas que as “inteligentes” criaturas, acham de somenos importância. O medo que eles têm que as pessoas pensem!

Vamos contrariar a onda. Vamos gostar do que eles chamam “antiquado”. Vamos estar atentos e presentes onde eles actuam. Vamos fazer-lhes frente no seu ambiente. Vamo-nos desdobrar e conseguiremos desmontar as suas patranhas. Sabemos da força multinacional que temos para enfrentar. Lutemos com o que temos. Ousemos!

É agora o tempo. Tudo está a avançar demasiado rápido. Temos de travar a caminhada desta gente. Temos de o fazer antes que seja dolorosamente tarde. Está na hora!

«Sabes, este mundo mete-me medo. Vê lá no que te metes.»

Voz de Isaurinda.

«Ter medo, mas saber vencê-lo. Terei cuidado e tu estarás ao meu lado.»

Respondo.

«Olha que eu não duro sempre!»

De novo Isaurinda e vai, o pano na mão.

Jorge C Ferreira Outubro/2018(185)  

 

Siga-nos nas redes sociais

Artigos Relacionados

22 Thoughts to “Crónicas de Jorge C Ferreira | Estes tempos”

  1. Rosario Torrado Correia

    Peço desculpa, podiam apagar o comentário repetido??? Enganei-me….Obrigado

  2. Rosario Torrado Correia

    Tanto conhecimento econsciência nas suas palavras, este ė o mundo que o Ser Humano atravės da sua dinâmica e transformação constante conseguiu criar, chego a lamentar pertencer a esta geração onde tudo acontece räpido demais para o meu gosto e sensibilidade…., Mas acredito que pode serdiferente, tal como eu muitos gostariam de ver aliado a este furacão de conhecimentos, de informação de tudo e de nada, de coisas e coisas para consumo imediato…., Um maior investimento na EDUCAÇÃO dos nossos sentimentos, no respeito pelo OUTRO assim como pelo legado que a NATUREZA nos premiou…….Obrigado pelo seu contributo nesta tarefa………..

  3. Rosario Torrado Correia

    Tanto conhecimento e conciência nas suas palavras…, Este é o mundo que o ser humano atravės da sua dinamica e transformação conseguiu criar, chego a lamentar pertencer a uma geração onde tudo acontece räpido demais para o meu gosto e sensibilidade, mas acredito que podia ser diferente, tal como eu, muitos gostariam de ver aliado a este furacão de conhecimentos, de tudo e de nada, de coisas e coisas para consumo imediato…, um maior investimento na EDUCAÇÃO dos nossos sentimento no respeito pelo OUTRO e pelo legado que a NATUREZA, nos premiou………Obrigado por nos “espevitar” e por a pensar nestas coisas………

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Rosário. A velocidade dos acontecimentos e dos não acontecimentos. A sociedade do desperdício. Vamos Ser para mudar. Abraço

  4. António Feliciano de Oliveira Pereira

    É um sentir muito rápido a transformação do mundo que muitos não conseguem acompanhar e outros nem percebem como fazê-lo, fazendo conta de que “sim” para se destacarem. Nem os criadores dessas “modas” sabem do seu efeito por que, no laboratório ainda não há resultados.
    Um abraço, Jorge.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado António. Grande alegria ler o seu belo comentário. Tem sido vertiginosa esta corrida para o “vazio”. Abraço

  5. Fernanda Luís

    As suas crónicas são uma bênção. Partilho desse desencanto. Os tempos mudam é certo, mas para tudo torna-se imperioso limites e bom senso. Vivemos numa selva global.
    Atraso civilizacional, que nunca imaginei ser possível.
    Bem haja Jorge.
    Aquele abraço.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Fernanda. Estamos num retrocesso perigoso. Retrocesso a que muitos chamam modernidade! Vamos continuar inteiros. Abraço

  6. Dagoberto Wagner

    A mim, que sou brasileiro, esses tempos metem-me mais medo ainda. Belíssimo texto Jorge, deu voz aos temores de muita gente… abraço!

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Dagoberto. Vamos resistir. Iremos vencer. Grande abraço.

  7. Idalina Pereira

    Ao ler esta crónica lembrei-me do General Sem Medo…
    Senti um grito de revolta …ao que não está bem…aqueles que se “acomodam”… não vamos ter medo e façamos cumprir o que ainda falta…somos muitos, mas o tempo vai passando.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Idalina. Vamos seguir o exemplo dos que souberam resistir. Abraço

  8. Madalena Pereira

    Fabuloso! Vamos continuar atentos e lutaremos com a força que temos e que o Jorge nos dá. Obrigada, meu amigo, um beijinho

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Madalena. Nunca desistir. Nunca baixar os braços. Abraço

  9. Lénea Bispo

    Há sempre alguém que está connosco para avançarmos sem medo. Juntos, seremos muitos e teremos as vozes em uníssono para gritar que é altura de parar . Olhemos com carinho para valores que estão a ficar já perdidos nas dobras da memória .
    Estou contigo, meu amigo .
    Estendo a minha mão …

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Lénea. Lado caminharemos até que a liberdade seja inteira. Abraço

  10. Teles Ivone Teles

    Querido amigo , adorei a tua crónica não só pelo conteúdo, mas também pela forma com que descreves estes mundos de agora. A maior parte com gente sem princípios, mas que produzem com as mais esfarrapadas mentiras, encantamentos que, multiplicados, levam as pessoas a péssimas escolhas. Ter-te entre os amigos é uma bênção que nos acrescenta. E todos juntos não permitiremos que o que era tão humano, em que ter a palavra bastava, em que os princípios eram invioláveis, se perca, Ter medo é normal senti.lo, mas ” venceremos, venceremos, com as armas que temos na mão/ venceremos, venceremos a batalha da revolução.

    A Isaurinda será a companheira certa. Beijinhos meu querido Jorge. <3 <3

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Ivone. Tenho de te agradecer tanto a tua amizade. Os teus comentários são a generosidade pura. Abraço

  11. Célia M Cavaco

    “Temos” um título de uma possível manchete. Alguns dirão com a máscara da avestruz pregada no rosto,temos? outros dirão alto e bom som para quem queira ouvir: com o mal dos outros posso eu bem…e levam a vida a bom porto.Nós que pertencemos ao grupo do “Temos” vivemos na corda bamba em desassossego constante. Temos nós meu muito amigo o olhar para um longínquo horizonte as cores da esperança e…acreditamos…
    Abraço meu amigo!

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Célia. Ser, essencial é ser. Saber os limites, fazer o caminho. Abraço

  12. Regina Conde

    Por instantes a sensação de uma força contagiante. Dizes “temos”. Medo sentimos sempre. Existem cada vez mais motivos. Ousemos enfrentá-lo. Somos tantos e o tempo passa rápido. Obrigada pela força, estares atento, por estares aí. Abraço imenso Jorge.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Regina. Sim, vamos enfrentar tudo. Vamos conseguir mudar as coisas. Vamos abraçar outro tempo. Abraço

Comments are closed.