Crónica de Alexandre Honrado | Brasil desencantos mil

BRASIL

DESENCANTOS MIL

 

 

Se tudo correr bem, Jair Bolsonaro, um obscuro político de fim de sala, um soldadinho de chumbos inexpressivos, será o novo presidente do Brasil. A sua eleição será um momento glorioso. A extrema-direita, no seu pior modelo, sairá à rua a celebrar, fará contas às armas e aos caixões que irá vender, guardará a sete chaves os processos de corrupção onde são protagonistas e pintará de cores berrantes a fachada da fábrica de fabricação de provas com que conseguiu chegar ao topo de escada.

Se tudo correr bem, os eleitores que votaram contra serão espancados, perseguidos, presos, acusados de crimes terríveis: por exemplo, a desfaçatez de pensarem pelas suas cabeças, defenderem valores de integridade, amarem a democracia e as liberdades (de pensar, de sentir, de agir, de crer, de desacreditar, de falar, de ousar, de amar). Pior, serão julgados primariamente e punidos de forma ainda mais primária por terríveis causas, como a de serem negros, homossexuais, pobres; as mulheres serão esterilizadas, se forem mesmo pobres e especificamente férteis.

Se tudo correr bem, Jair Bolsonaro vai cumprir o que antecipou: fazer do Brasil uma Venezuela de extrema-direita, coisa fácil a julgar pelos antecedentes: Dilma Rousseff, por exemplo, foi impugnada por motivos ideológicos – e não reais, já que não lhe foi imputado nenhum crime.

Sendo Jair Bolsonaro um soldadinho, há de querer, se tudo correr bem, uma ditadura militar. O País não será policiado – mas policial. A ditadura ensinará a vergar a coluna, pelo menos aos que ficarem vivos.

Se tudo correr bem, a população poderá comprar armas com facilidade, para proteger os seus ódios, e matar o próximo.

Haverá emprego para os jovens, provavelmente como mercenários em algum ponto ávido do médio oriente, ou do que a América lhes sugerir, talvez Irão, talvez favelas.

O ódio, a lei dos crentes, substituirá de vez o amor, que ainda é divino para alguns. Os religiosos teimarão em perseguir os não religiosos (como já fazem no Brasil) e os ateus mais ricos passarão a fronteira para um novo período de exílio forçado (como já andam fazendo, alguns estão cá).

Se tudo correr bem, Jairzinho Soldadinho deixará crescer um bigode com o aspeto de uma borboleta ridícula, saudará os amigos com um Hail Eu!, até que a voz lhe doa, ou a tendinite o surpreender. E por mero acaso esquecerá Lula para sempre, como a justiça esqueceu a falta de provas.

Se tudo correr bem, Jairzinho Soldadinho será o Suja Jato, ou por outras palavras mais um fascista a ganhar bem a vida. Tudo isto num país onde a Democracia vai resistir, até na paisagem, por mais tempo que o pesadelo dure. Se tudo correr bem.

 

Alexandre Honrado

Historiador

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