Crónicas de Jorge C Ferreira | Que Tempos!

Que Tempos!

Jantar. Escolher e vestir a roupa mais indicada. O perfume.  Sair. Ir direito ao café de todos os encontros. Procurar e esperar que nos procurem. Uma, duas bicas e muita conversa. A cabine telefónica. A necessidade de moedas. As namoradas e as não namoradas. As caras novas e o querer entrar no grupo. Havia quem fosse jogar bilhar noutro café. Havia quem se predispusesse a outros ambientes. Todos amigos. Todos juntos. Os corpos, os corpos. Outro café.

A inesperada tentação. O inesperado convite. Aceitar e temer. Deixar-se ir. Uma aventura nova. Tremer e não desistir. Um quase castigo. A dupla sentença. Os olhos que não vemos e que nos espreitam. As secretas visões.

As luzes que nos descobrem as fraquezas. De repente outra luz. Outro som. Um chão escorregadio. Os pés que deslizam. Os corpos que se unem. As caras muito encostadas. A noite muito jovem. As bebidas e o sabor dos beijos. Tropeçar e não cair. Mais uma bebida. É tempo de mudar de lugar.

Outras luzes. Novas músicas. Os corpos, sempre os corpos. A descoberta inteira. Novos veludos. Outro chão. As bebidas, mais bebidas. As mãos dadas. A vida toda num momento. Sonhar e avançar. Ainda é cedo. Há um sítio que fecha mais tarde. “Mudam-se os corpos, não se mudam as vontades”. Deslizamos para o novo sítio.

Uma cova-funda, um enorme cheiro a tabaco e a delírio. Há música ao vivo. Há rádio. Um outro mundo, uma outra noite. Agora sim. Ia começar a verdadeira noite. Um ambiente para aprender e continuar a descobrir. Eram outras as euforias. Eram novos os fascínios. Os corpos, os corpos que continuavam. Um solo de trompete e um beijo com outro som. Mais uma bebida. “Mais um copo”. A música que nos continuava a incendiar os sentidos. Outro beijo. Outra vez as caras encostadas. Os corpos mais unidos que nunca. Sentir fome. Arrancar para outro lado.

Um mercado. As verduras a chegarem. A labuta a começar. A cantina de todas as sopas. Gente que chegava de todos os lados. Uma estranha refeição que acalmava a revolta interior do corpo. O preparar de outro passo. A cor imensa da indecisão do dia. Alimentar a má vida. De tudo se encontrava naquele local quase mágico. Eram outras as bebidas. As mãos diferentes de muita gente. O trabalho. O encontro de vidas. Um entrelaçar de vontades. Aprender a cantar novas canções. O Actor declamava um Poema. O outro caminho quase a chegar. Já se notam os primeiros raios da nossa estrela grande. É tempo de começar outro tempo.

Ir para casa. Fechar as portadas. Despir a roupa cansada. Os poros a respirar diferente. Os corpos a colarem-se de outro modo. A outra aventura. Acreditar na felicidade suprema. Rejeitar os lençóis. Caminhar ao som dos desejos. Satisfazer e ser satisfeito. Abrir outros caminhos. Descobrir outros momentos. Ser cavaleiro e salvar a princesa. Adormecer ao som de uma nova história.

Por vezes acordar e não se reconhecer. Outro beijo. Descolar os corpos. Um duche retemperador. Preparar uma refeição desconhecida. Encher a mesa de ternura. As loucuras da vida.

«Olha que bonitos exemplos de vida! Devias ter vergonha.»

Voz de Isaurinda.

«Estou só a contar um tempo de vida que conheci bem e nem sempre a vivi. Sabes que fui trabalhar muito novo.»

Respondo.

«Falas bem, mas não me enganas…»

De novo Isaurinda e vai, o pano na mão.

Jorge C Ferreira Outubro/2018(183)

 

Siga-nos nas redes sociais

Artigos Relacionados

16 Thoughts to “Crónicas de Jorge C Ferreira | Que Tempos!”

  1. Regina conde

    O cheiro do delírio de um corpo jovem, viver como se fosse à pressa. Tudo se vivia intensamente. Os dias pareciam ter mais de 24 horas. Poucas horas de sono. Trabalhar muito novo. Adoro a fala da Isaurinda, não te atura as modernices daquele tempo. Abraço grande Jorge .

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Regina. Tempos loucos. Poucas horas de sono. A vida a correr. Abraço

  2. Madalena Pereira

    Bons tempos de juventude vividos noutra época e que sabe sempre bem recordar. Está impagável o diálogo com a Isaurinda! Acabei a leitura com um sorriso. Obrigada, meu amigo, um beijinho

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Madalena. Outros tempos, outras loucuras. As avisadas reprimendas. Abraço.

  3. Cristina Ferreira

    Querido Jorge, falas de outros tempos, o tempo das descobertas da forma mais delicada.
    Mas essa do começar a trabalhar muito novo , “não pegou” .
    Agora, não temos o solo do trompete , temos a magia das tuas palavras. Bem hajas.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Cristina. Mas é verdade, fui trabalhar era uma criança. Abraço

      1. Cristina

        Sei que foste trabalhar muito novo. Não era a isso que me referia. A Isaurinda sabe. Abraço -vos.

        1. Jorge C Ferreira

          Obrigado

  4. Maria da Conceição Martins

    É isso. Que tempos! Vividos ou não. Nalguns casos, apenas ouvíamos falar e às vezes nem isso. No nosso tempo a vida das raparigas era bem diferente da dos rapazes. De uma maneira ou de outra era a nossa juventude e essa ninguém nos tira. Grande abraço Jorge e obrigada pelo texto.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Maria da Conceição. Um caminhar, uma aprendizagem. As liberdades a nascerem clandestinamente. Abraço

  5. Isabel Pires

    Outros tempos , viver a sonhar , sonhar a viver. Boa noite

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Isabel. Tempos de descoberta. Tentar colmatar o nosso atraso. Abraço

  6. Célia M Cavaco

    Um folhear de páginas de vida,ou da vida. Haverá diferença? Nem eu mesma sei,de ou da, a vida é compulsiva e estonteante,é como um carrossel numa feira de vaidades. A volta a dar depende de quantas voltas se quer dar no carrossel da vida.As fichas não são mais que memórias num cavalo branco. Como é bom ler essas passagens de vida dentro da própria vida.Abraço meu amigo!

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Célia. Que bem escreveste! Um carrossel estonteante. Abraço

  7. Ivone Teles

    Outros tempo? Outras idades? Vestir-se para novas aventuras. O jantar, um bom pretexto para embelezar o aspecto exterior. A procura de novidades. A época de aprender. Ouvia falar, mas não tenho a experiência. Nesses tempos tu sabes que era assim, com corpos e copos. Tudo falado em segredos de que ouvíamos só uma ou outra palavra. Os primos mais velhos e a qualquer pergunta a eterna resposta : ” Já a formiga tem catarro “. E agora não será o mesmo? A liberdade, a igualdade, a despreocupação. Tudo seria muito positivo com esses valores. Mas não é assim que vejo e ouço na minha Cidade e há uma enorme fragilidade nesses jovens que vieram para estudar. Nem tudo corre bem. Estamos noutros tempos e as mesmas idades. Melhores? Piores? Aos mais velhos, como eu, parece-me excessivo. Até pareço a Isaurinda. São tempos de mudança e assim será enquanto o mundo for mundo. QUE TEMPOS ! Foram os nossos, vividos ou não. São os de agora, vividos, ou não.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Ivone. Sempre bons os teus comentários. Sempre a tua imagem da mesma vida. Que bom ler-te. Abraço

Comments are closed.