Crónicas de Jorge C Ferreira | A Casa de Partida

A Casa de Partida

Estamos cada vez mais perto da casa de partida. Vem-nos à memória o jogo da glória, os cavalinhos, a macaca. As saias plissadas, as calças de golfe, as meias brancas até ao joelho, os sapatos de carneira.

Rolam os dados sobre o pano verde da esperança que nunca perdemos. Não há dados viciados neste jogo. Há quem gaste muito dinheiro no casino e ao balcão dos bares. Fazem-se as últimas apostas. Experimentam-se as derradeiras bebidas.

De tudo isto sou um mero espectador. Não bebo nem jogo. Nem ao monopólio. Não faço ideia quanto custa agora a Rua Augusta ou o Rossio.

Sabemos que temos pela frente duas noites e um dia de mar. Aperfeiçoamos a linguagem. Cuidamos da voz. Há muita conversa por acontecer. O mar está encantado. A vida corre. Há algum brilho nos olhos de muita gente. Está muita coisa a acontecer. Os nossos olhos são por vezes pouco! O que há para ver é imenso. O que há para conhecer é ainda desconhecido.

Já estivemos no dia inteiro e continuamos a descer. Esperamos chegar. A noite já se instala cada vez mais cedo. Os hábitos vão-se ajustando aos acontecimentos. Vamo-nos adaptando com facilidade.

Vamos conhecendo cada vez melhor as pessoas.

Há gente que nos cativa pela simplicidade com que demonstra o seu brilhantismo. Sem se colocar em bicos de pés. Nada disso necessita quem tem brilho próprio. Muitas vezes tudo acontece ao primeiro olhar, à primeira fala. Há um cheiro a sinceridade que rodeia tudo em que estas pessoas tocam.

Os dias de mar são dias de liberdade intensa. Dias sem horários. Comer quando nos apetece. Dormir quando e enquanto a vontade nos ditar. Andar pelo tempo e ter tempo para ver o tempo a passar. Leitura, escrita e conversa. Os cafés e os recantos, os nossos esconderijos no meio da multidão. Fugir ao consumo. Saber do que necessitamos.

Descansar num banco do deck ao ar livre e olhar o azul imenso. Apenas um pequeno varandim nos separa do vazio.  Procurar avistar terra. Inventar vidas para lá do horizonte. Tentar escrever sobre os seus dramas e também as suas aventuras e momentos de júbilo. Tentar ver o mar para além do seu movimento. Ir até ao fundo das coisas e perceber porque os homens também choram.

Tentar entender do voo das aves e do emergir e submergir dos peixes. Escutar o silêncio de que, por vezes, tanto necessitamos. Apetecer mergulhar. Levar uma lanterna e ouvir unicamente a luz. Um foco que descobre seres únicos, coisas que ficaram de outros tempos. Saber do valor da descoberta e pasmar. Uma perigosa euforia.

Andar pelo chão de madeira e gostar do vento que nos despenteia. Pensar no que sentiremos quando perdermos o cabelo. Apertar o casaco. Ajeitar a echarpe e continuar caminho.

É tempo de começar a arrumar as coisas. As tais coisas que trazemos sempre a mais. Outras inutilidades que acabamos por comprar. Sabemos disto há muito tempo e continuamos a errar. Coisas que fazem parte do irracional.  Por mais que viajemos acabamos por cometer sempre os mesmos erros. Somos do inventar. Faz parte do sonho.

«Tens razão, andam sempre a acartar com coisas de que não fazem qualquer uso!»

Voz de Isaurinda.

«Sabes que é assim. Sabes também das discussões quando fazemos as malas.»

Respondo.

«Se sei…já nem oiço!»

De novo Isaurinda e vai, o pano na mão.

Jorge C Ferreira Setembro/2018(178)

 

 

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21 Thoughts to “Crónicas de Jorge C Ferreira | A Casa de Partida”

  1. Maria

    Gostei muito do que li talvez até porque me revejo em muitas das frases, das palavras, e achei muito bonito. A idade torna nos mais sábios mas continuamos a errar, a sonhar, aquela criança não morreu em nós totalmente e ainda bem. Gostei, parabéns!

  2. maria fernanda da cunha morais aires gonçalves

    Faz hoje seis anos (meia dúzia) que trocamos palavras on line, foram eles que me disseram, os donos do facebook, queria então dizer-te que és único. Vi-te uma vez e penso que me conheces bem. Tenho o coração e a boca na ponta dos dedos e por isso para mim funcionas como o meu espelho. Falo-te do que fiz de bem e do que fiz de mal, das minhas precipitações e nunca dos meus arrependimentos. Amigo, és sempre maior que o pensamento! Aqui estou eu, tal qual. beijo-te e envio-te por aqui a minha gratidão. Hoje vesti a minha neta com a minha saia dos amores perfeitos, que eu nunca tive a não ser o deles, dos poucos amigos em que te incluo.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Fernanda. Sabes que te gosto muito. Sei que irás ter tudo o que mereces. Abraço muito amigo.

  3. Cristina Ferreira

    Ao contrário da querida Ivone, sou mais nova que tu, mas nem por isso me deixo de identificar com as tuas palavras e com os teus sentires. Desde sempre que há momentos, muitos mesmo, que me sinto como se fosse/vivesse de/ outras gerações. Sempre foi assim e assim gosto de continuar a ser/sentir.
    Entre jogos tradicionais e de tabuleiro, faço questão de manter a tradição de os jogarmos, pois fazem parte de momentos vividos em família e por várias gerações. Acima de tudo, representam momentos lúdicos e que a convite dos filhos faço questão de não prescindir. Considero de maior importância.
    Ahhh e depois falas-nos do teu mar, esse mar que já é nosso e das suas histórias. Depois, o gerar estórias que mexem com as nossas emoções. E que agradecemos sempre. Tantas vezes de lágrimas nos olhos. Alguns sortudos até já tiveram o privilégio de assistir à luz que te abraça – Imensa.
    Bom…já nem vou falar das discussões das malas e das inutilidades que sempre acabamos por comprar, mas como tão bem dizes:
    acabamos por cometer sempre os mesmo erros . Somos do inventar. Faz parte do sonho.
    Abraço-te muito, querido amigo do mar, dos afectos e do choro fácil. Obrigada.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Cristina. Faxes bem em continuar com os jogos de mesa. Sabes que já há encontros para os praticar? Que bem leste e escreveste. Abraço.

      1. Cristina Ferreira

        Ahhh obrigada. Sim, é verdade. Tão engraçado, não é? Mas olha que nós enquanto família éramos logo destituídos, de certeza (rsrs)

        1. Jorge C Ferreira

          Nada disso!

  4. Branca Maria Ruas

    Sentir o prazer de ir conhecendo os outros. Viver o Mar e a liberdade. Saber escutar o silêncio. Ver para além do olhar.
    Até podes trazer coisas a mais mas as palavras, essas trazes sempre na conta certa. As que precisamos para continuarmos a viajar contigo,
    Obrigada por mais esta viagem!

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Maria. Sabes o importante que é olhar para além do óbvio. Ver bem.

  5. Isabel Pires

    Andar pelo yempo e ter tempo de ve-lo passar. Boa noite

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Isabel. O tempo é um mistério enorme. Abraço

  6. Madalena

    Delicioso este texto! Sorri ao lê-lo, tão bom! Obrigada meu amigo e bom regresso. Um beijinho

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Madalena. Que bom que se riu. Grande abraço.

  7. Idalina Pereira

    Escutar o silêncio…ter tempo para o tempo…ver e sentir o mar…olhar e ver o voo dos pássaros…adorei esta crónica de sensações.
    Que prazer lê-lo, meu amigo.
    Boa semana. Um abraço.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Idalina. São os sentidos que nos fazem voar

  8. Regina Conde

    Autêntica fonte de informação. Assim senti ao ler o texto. Confesso que gosto de jogos de tabuleiro à excepção do monopólio. Claro que não gostas de criaturas que se colocam em bicos dos pés. Que bom não ter horários. Tanta liberdade se sente ao vislumbrar o mar. Estar tão perto de sentir o azul da tentação. Sabes porque choram os homens. Porque será que alguns não o fazem? Adorei ler-te. Dizes sempre muito mais do que escreves. Abraço Jorge.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Regina. Sempre generosa nas palavras. Sim, sou dos afectos e do choro fácil. Sou do mar. Abraço.

  9. Raquel Lameirão

    Gostei tanto Jorge!!! Também joguei muito ao jogo da Glória e ao monopólio! Saudadesdesses tempos!!!
    Acartamos sempre muito mais do que precisamos, mesmo quando somos, ou oensamos que somos conscientes….é um vício!
    Um abraço de gratidão por tão excelente texto!!

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Raquel. Que jogos! Grato pelo seu comentário. Abraço.

  10. Teles Ivone Teles

    A falta que me fizeram as tuas crónicas. Sorri desde o início desta. És mais novo do que eu, mas recordei tudo o que foi vivido como dizes no primeiro período.Os jogos da Glória, as saias plissadas, os cavalinhos. Também as meias brancas até ao joelho e os sapatos de carneira que se esfregavam com sebo. E as macacas. Só jogava o monopólio em casa dos meus primos. O meu pai não nos queria com jogos desses.
    Vejo-te, agora, a descer para deixar o teu mar. As saudades de pessoas ” que valham a pena ” . Dás-te mal com quem se quer pôr em bicos dos pés, gente sem luz própria.Dias de mar extenso. Criar estórias e perceber que ” os homens também choram.”
    A ” tralha” que se transporta a mais. A Isaurinda tem razão, mas é quase inevitável.
    Gostei de voltar às tuas palavras. Virão muitas mais. Pressinto-te já com saudades.Beijinhos meu querido amigo Jorge, também meu irmão.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Ivone. Que bom ler de novo as tuas palavras, minha amiga/irmã. Uma alegria imensa. Eu sou de chorar com facilidade. Abraço muito grande.

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