Crónica || Alexandre Honrado – Viajar

Não percebo bem porque é que, em férias, me divirto tanto a ler e a estudar, se nos restantes meses me subordinei às exigências de estudar e de ler. Faço-o, é claro, de outra forma, retemperadora: com um espírito solto, com uma visão do conhecimento que não me cria laço e compromissos e sobretudo faço-o ao ar livre, ou viajando por locais onde as pedras falam como velhos amigos, as pinturas desafiam a olhares enamorados,  os sons se revelam ecos de passados nem sempre agradáveis mas invariavelmente reveladores.

É a minha forma, por vezes insensata, de entender coisas tão diversas como o clima e a zoologia, a botânica e as tradições, as leis e os povos, a justiça e a afetividade. Não partilho, quando regresso, a ideia de que o nosso país é o pior do mundo e o mais mal governado. Também não sou levado a embirrar com os meus conterrâneos, até porque partilho com eles tanta azia que a predicação – sim, a ligação sujeito/verbo, eu e ação – feita agora com alguma doçura parece-me uma exigência.

Viajar, digo-vos, devia ser obrigatório. Entendemos o mundo naquilo que o nosso mundo não tem e antes não percebia que lhe faltava. Não o faço para depois construir roteiros de viagens ou fazer relações de peripécias, menos ainda para a vanglória.  Cumpro talvez uma tradição antiga.

Lembro-me de relatos de viagens, esses sim, marcantes na Península Ibérica. A Fazenda do Ultramar, um texto de geografia bíblica que parece ter sido elaborado a partir de um mapa. E o Liber Santi Jacobi, de Américo Picaud, clérigo francês que percorreu várias vezes o caminho de Santiago. Mais O Livro de Viagens, de Benjamim de Tudela, viajante judeu que partiu de tudela, fez meio mundo, e com Bagdad, todo o Egito e a Terra Santa pelo meio, acabaria onde as melhores viagens devem ter escala: em Paris.

Mas se Benjamim procurava comunidades hebraicas, Abu Hamid fez a sua Relação de Viagem, no âmbito da Rihla, isto é, para o relato de viagens em árabe. Hamid escreveu, sobretudo na extensa Tuhfat al-albab, o que considerava mais importante conhecer no mundo: o que o mundo tinha de mais original e maravilhoso, até inverosímil.

Outro árabe, Ibn Djubayr deixou-nos as Peripécias Que Sobrevêm durante as Viagens e Amed Ibn Fadlan a Viagem no País dos Búlgaros do Volga. Ibn Batuta partiu da sua cidade natal em 1325 para a sua primeira viagem, cuja rota englobava o Egito, Meca e o Iraque, os lugares maiores do seu tempo. Mais tarde, correu o Iémen, a África Ocidental, a costa do mar Negro, as margens do rio Nilo, a Ásia Menor, a Crimeira, a Rússia, o Afeganistão, a Índia (conta-nos que esteve em Calicute, como Vasco da Gama), ainda as ilhas de Sonda, na Indonésia, a região de Cantão na China.

Já fiz os meus quilómetros, garanto-vos. E parto invariavelmente para chegar a mim, ao mais fundo do que sou e do que ainda posso ser. Isso, também é garantido (pelo menos para mim).

 

Alexandre Honrado

Historiador

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