Crónica de Alice Vieira | Dantes os comboios

DANTES OS COMBOIOS
Alice Vieira

 

Mais do que as viagens, mais do que ficar a olhar pela janela pensando que eram as árvores e as casas e as estradas e os campos que corriam e não eu–foi o cinema que muito cedo me deu a paixão pelos comboios.

Cinema a preto e branco, evidentemente, onde os comboios eram daqueles a sério, apareciam e desapareciam entre espessas nuvens de fumo, e depois no meio delas acabávamos por descobrir o herói que chegava, ou que afinal não tinha partido e decidira ficar para sempre nos braços da sua amada. Daqueles que faziam o Gary Cooper  olhar vezes sem conta para o relógio da gare, ao lado de uma Grace Kelly de chapelinho de abas, esperando a desgraça que havia de chegar a meio da tarde.

Daqueles em cujo topo o Buster Keaton se passeava, entre túneis e precipícios, a fuligem do carvão empapando-lhe o corpo.

Daqueles onde havia sempre espiões, e freiras disfarçadas, e resistentes a fintarem os nazis , e velhinhas de carrapito que de repente nos apontavam uma pistola e fugiam com os sacos do tesouro federal.

Daqueles onde um polícia (o mau) perseguia um ladrão (o bom) saltando de carruagem em carruagem, e a gente a torcer-se na plateia para que a carruagem seguinte se desprendesse do resto do comboio e o ladrão pudesse regenerar-se no colo da rapariga loira, enquanto o polícia caía pela ravina no exacto momento em que o comboio enchia os ares com o seu apito, abafando-lhe os gritos.

Daqueles que nos faziam perceber que uma vida monótona se podia redimir por alguns momentos de um breve encontro num pequeno restaurante de uma pequena gare de uma pequena cidade, entre amores clandestinos e silêncios deslumbrados.

Dantes, os comboios eram assim.

E as gares.

E os pequenos restaurantes, de soalhos a cheirar a sabão e cera, de mesas de ferro e de madeira, e melancólicos criados que nos punham na frente grandes chávenas de chocolate quente, que agarrávamos com ambas as mãos, para que o frio passasse mais depressa.

Aí sonhávamos com os nossos heróis do cinema, esperando que chegassem no primeiro comboio, por entre nuvens de fumo, muito, muito fumo, que graça poderia ter um comboio sem fumo?, heróis com os olhos do Trevor Howard, por exemplo, e nós, claro, de bóina levemente inclinada e o cesto de compras ao lado , que ele obviamente iria carregar, porque é um cavalheiro,  mas antes disso há o tempo da paixão, que começa e acaba entre um comboio que chega e um comboio que parte, com muitos violinos em música de fundo.

Um dia, sem que alguém até hoje conseguisse explicar a razão, o velho Leão Tolstoi fugiu de casa, apanhou um comboio, saiu quando já estava muito longe, e deixou-se morrer, sozinho, na pequena gare de Astapovo.

Sempre me pareceu a maneira mais digna de morrer—sobretudo, como era o caso, passados os 80 e depois de já se terem apanhado todos os comboios essenciais da vida.

Mas há muito que os comboios deixaram de ser o que eram.

Eléctricos, assépticos, a grandes velocidades, demoram três horas de Lisboa ao Porto, têm televisão, wi-fi, empregados que levam ao lugar jornais e revistas, a bandeja do pequeno almoço, ou do almoço , homens de negócios apressados, mergulhados no écran dos seus computadores ou ligados ao smartphone, aproveitando o tempo da viagem para adiantar a reunião que vão ter, ou o artigo de opinião que há-de seguir para o jornal, para pedirem que um taxi esteja à sua espera na estação, porque não podem perder um minuto que seja.

Rápidos, os comboios já só param nas estações importantes—e nem em todas. As pequenas gares desapareceram, e com elas os pequenos restaurantes de soalho a cheirar a sabão e cera. Agora existem apenas arremedos de supermercados ou snack-bares, bancos de plástico onde se olha para os écrans  da televisão a ver se o comboio vem à tabela.

As nuvens de fumo desapareceram também, levando com elas as paixões, os breves encontros, os olhares cúmplices sobre as chávenas de chocolate quente, as bóinas inclinadas, os olhos do Trevor Howard.

Dantes os comboios eram o prolongamento dos nossos sonhos.

Hoje são o prolongamento do nosso escritório.

Se fosse hoje, o velho Leão Tolstoi teria decerto grande dificuldade em encontrar um digno e solitário lugar de adeus.

 

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