Crónica de Alexandre Honrado | Não só o burrito vai à feira

NÃO SÓ O BURRITO VAI À FEIRA

 

 

Como todos os anos, de há uns 30 a esta parte, dei comigo na feira do livro, sorrindo a leitores ou a compradores de livros, colocando dedicatórias com mais ou menos criatividade, uma delas ímpar – “dedique aos meus netos, que são oito, e todos ficarão contentes!” -, outras menos originais, mas sempre felizes, ao saírem do meu punho para parte incerta.

Como todos os anos, não consigo deixar de me sentir observado – é confrangedor estar sentado numa mesinha e ser olhado, de frente, de soslaio, com interesse ou desconfiança – , sendo que acaba sempre por ser esse o momento em que me sinto objeto, sem poesia nem pensamentos, uma coisa entre muitas coisas.

Este ano, o poder da feira ainda se diluiu mais, ao sentir que a euforia estava em torno do livro do cantor, que é o mais vendido do ano, e dos retratos com o Presidente que desce do Parque à Rotunda interrompendo a marcha para posar, sendo mais um dos que nem os livros olha, a festa é outra e fica na memória, mas só do telemóvel, até outra novidade exigir-lhe o espaço.

Gosto de livros – muito mais do que de feiras. As editoras põem sempre no contrato que é obrigatório o autor lá ir, para promover o livro. Dúvida insana: qual é o livro que se promove pela presença do autor, se não tiver mais a dizer do que o lapso de um momento de frágil contacto entre a paternidade perdida – nenhum livro é já do seu autor depois de publicado – e os órfãos do saber que ainda acreditam que o livro lhes trará um pouco de afecto, sabedoria, prazer, ou sensação.

Nem sei porquê lembro-me de repente de um sábio entre sábios, o George Steiner – com quem estive algumas vezes e, tolo, quase nem consegui articular palavra que lhe dissesse, pelo menos fazer-lhe chegar o quanto sempre me fez bem a sua erudição – e uma palavra que usou, repetidas vezes: o ideolecto, para se referir a um dialeto das ideias, à construção de palavras capazes de adequar a interpretação cultural do que o mundo produz numa explicação singular do efeito causado: do agir ao sentir e ao pensar, em suma.

Não consigo criar uma matriz de ideolecto para entender em sentido literal estético, estático ou meramente testemunhal essas horas de feira e de feirantes, de mercado e mercadores, de pais que compram para os filhos livros que eles não lerão, de filhos que pedem aos pais livros que os pais não lhes comprarão, de tanta orfandade sem explicação, de um mundo onde a única base que realmente o aproxima – a palavra! – parece confinar-se a monossílabos, siglas, gestos que são atalhos e ideias que são fina areia em ampulheta que desdenha o passado, estremece no presente e não entende que futuro possa ter como herança ou meta promissora.

Da festa que a feira também é – muitas feiras são-no – retiro amplos e difusos pensamentos. Abraço amigos, deitados nas tendas onde aguardam reconhecimento. Há uma fila longa para os livros do cantor. Maior ainda do que aquela que exige ao Presidente uma foto de raspão.

 

Alexandre Honrado
Historiador

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