OPINIÃO POLÍTICA | Mário de Sousa – Desabafos de um doente

Desabafos de um doente

Há cerca de 20 anos colocaram-me aqui. Estava bonito. Tinha uma zona cimentada onde as crianças podiam jogar à bola, andarem de bicicleta ou praticarem qualquer outro jogo; até aquele jogo bem antigo de só conversarem e confidenciarem, como só as crianças sabem fazer. Tinha também uma zona com areia com um escorrega e um baloiço. Por fim colocaram um banco de jardim e enfeitaram-me com 5 árvores.

À minha volta existiam apenas 2 casas habitadas. Tudo o mais eram moradias em construção. Os promotores mostravam os lotes e evidenciavam o meu bom aspeto bem como as horas de felicidade que eu poderia proporcionar aos futuros ‘rebentos’ que pudessem vir a nascer ou aos que já existiam. Não sei se fui fator decisivo mas que contribui para isso foi um fato.

Foi assim que a primeira geração que habitou à minha volta se divertiu e cresceu. Lembro-me das suas travessuras, dos jogos de futebol e de os ouvir gritar: Mãe! Posso ir brincar pró cimento? Foram crescendo e a alguns ainda os vi namorar e partilhar sonhos, sentados no banco que me mobilava.

De vez em quanto, alguns funcionários vinham ter comigo e cuidavam do meu aspeto. Andava sempre limpo e asseado. Depois, com o passar dos tempos as visitas foram rareando e eu comecei a perder o meu brilho. Um dia o fornecedor de gás fez obras no habitáculo das bilhas e os restos dessas obras por lá ficaram. Misturaram-se com a gravilha e as ervas fizeram o resto. Aliás todo um manto de verdura foi crescendo e secando, crescendo e secando! Numa altura de crescendo, o fornecedor de energia resolveu pintar a casa onde está o transformador. Não arrancou as ervas e terminou a pintura pela orla da vegetação que subia até um terço da altura.

Os anos foram passando e eu fui ficando decrépito. Quem devia cuidar de mim nunca mais apareceu. O cimentado foi enegrecendo, a gravilha encheu-se de terra pela ação das ervas e dos matos e a areia foi desaparecendo levada pelo vento e pelos tufos de vegetação. Secou uma das árvores e foi arrancada. Este Inverno caiu outra e foi arrancada. Estou como as bocas velhas, a perderem dentes.

Com todo este desleixo já não recebo crianças e apenas um ou outro parzinho de namorados ainda arrisca sentarem-se no banco. Uma noite, um adolescente mais inflamado escreveu no muro a letras negras ‘Amo-te Linda. Vou-te respeitar sempre’. Pais das filhas cá do sítio pensaram quem é que seria linda? Todas as filhas são lindas para os seus pais. Durante semanas por lá esteve a frase. Um dia apareceu um homem com uma lata de tinta e um pincel. Pintou esforçadamente as letras. Agora não tenho pintada uma declaração de amor. Tenho no seu lugar uma cicatriz que deixa ler por baixo ainda que de forma ténue, ‘Amo-te …’.

Esta semana surgiram dois carros cheios de baldes, de máquinas e de homens vestidos de verde. Cortaram, sopraram, espalharam, apanharam a erva cortada e foram-se embora. Agora tenho o aspeto de alguém a quem raparam o cabelo para desinfestação e ficaram-se a ver as cicatrizes das batalhas da juventude. E cá fiquei a evidenciar o banco decrepito e apodrecido onde já ninguém se senta, a gravilha negra e suja, o habitáculo das botijas de gás com a porta ferrugenta e podre, os cacos de tijolo espalhados e a casa do transformador de energia sem a proteção das ervas, mostra agora a falta da pintura.

O escorrega está podre e a perder a descasar o plástico, a cortiça de proteção é agora um perigo toda estalada, e o baloiço podre já não aguenta com crianças. E sabem onde estou? Em Mafra, a 50 metros da estrada para Ericeira, tão perto mas tão longe desse sucesso turístico. Tenho pena que quem nos visita em busca da qualidade de vida não passe por aqui para se deliciar com a sombra das árvores frondosas que nunca foram substituídas. Estou doente. Disseram-me que sofro de falta de manutenção.

E agora dizem-me que tenho de esperar porque a bem do Município e do Turismo o dinheiro disponível vai ser utilizado na manutenção dos Órgãos, na vinda do Museu da Música e se sobrarem alguns trocados irão talvez para os Carrilhões.

É pena. Quando chegar a minha vez talvez já não exista como jardim ou parque infantil. Eu sei que a minha existência não conta para engrossar o curriculum a ninguém mas convém que quem manda nos nossos destinos, entenda que é nos nossos braços antes mesmo da escola, que as crianças aprendem a ser livres, a brincarem a terem as suas primeiras aventuras. Quem já se esqueceu disto é porque é VELHO, irremediavelmente VELHO e sem soluções para a comunidade.

Mafra, 20 de Maio de 2018
Mário de Sousa

 

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