Crónica de Alexandre Honrado | Abril não é uma rua deserta

 

ABRIL NÃO É UMA RUA DESERTA

 

Não falo de abril como de uma rua deserta, muito menos como uma azia fétida, um mau hálito de coisa podre instalada nos que lhe viraram as costas.

Se não fosse abril éramos muito pouco, mesmo os mais medíocres de nós. Os medíocres são os que ficaram a abanar as suas pernas e as suas poucas e ralas ideias curtas em cima dos móveis do passado, uivando como algum vento aborrecido, com os colmilhos ávidos da jugular alheia, que nem sempre ousam morder; os medíocres da saudade, do suspiro, do velho fado da cepa torta e das botas de elástico.

Não falo de abril, portanto, como de uma rua deserta, mas também não falo do abril do desfile do costume, um desses que parece procissão de data litúrgica, descendo as estradas poeirentas porque é hábito, com os seus habitantes do mesmo hábito que empunham festões, bandeiras, faixas ou pálios, de um lado uns sindicalistas ultrapassados, do outro o cura já sem cura, mal abençoado e nitidamente a cambalear, até cair na próxima tentação.

Uma parada popular quando é posta sobre o controlo de alguém ou de algum intento, não passa de um triste encontro de propaganda.

Não falo de abril como um mês da inteligência, há vários tipos de inteligência e apenas uma é benéfica. Como também não falo de um abril cultural, o raio da cultura nem sempre é coisa boa (e até Hitler andava a montar um museu que lhe agradasse pouco antes de explodir no bunker, ou lá onde felizmente explodiu).

Se abril fosse inteligência tinha vencido os que não a têm e ficaram a remexer nele, como o fazem certas crianças na fase anal, que ficam obcecadas com o que os outros e eles próprios expeliram.

Se abril fosse cultura quem a faz não seria mendigo, e não teríamos uma direção geral dos desastres a fintar as artes, e essas coisas.

Se falarmos em cultura, atentemos bem que a nossa, a cultura de Portugal, tem as suas raízes nas culturas celta, fenícia, africana, ibérica, germânica e romana. Os que vivem de preconceitos culturais ficam à toa com esta verdade. E os outros nem sequer percebem a frase, o que nos dá umas ganas imensas de reinventar abril.

Não, não falo de abril como uma rua deserta. Se calhar, no meu imaginário é mais como uma festa dos tabuleiros, toda a gente na rua com música e as flores a subirem-nos à cabeça.

Se abril não houvesse não seria eu. Não teria papoilas à minha volta e um cravo aqui mesmo, inamovível.  Então, eu seria talvez parecido com gente de outros meses, embora não me pareça que fosse um Oliveira, um Coelho, um Cabral, um Mamede Coelho, uma Assunção, pois quando o sangue que nos corre nas veias é bom, não se confunde nunca com o velho capilé ou a malta das débeis transfusões.

 

Alexandre Honrado
Historiador.

 

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