Crónica de Alexandre Honrado | Sempre que nos negam a brandura

SEMPRE QUE NOS NEGAM A BRANDURA

 

Portugal nunca foi de brandos costumes. Nasceu dos atos violentos da ocupação progressiva do que era de outros, trazendo o território do Minho ao Algarve e, não contente, expandindo-se com ferro, fogo e alguma ideologia, por outros continentes.

Das batalhas de Pedroso,  e de Arouca, ainda nem reino se formara, à Operação Penada na Fronteira de Moçambique com o Malawi e a Rodésia, à Operação Ametista Real, em Guidaje, na Guiné, sem sabermos exatamente o número de mortes portuguesas e dos adversários, a lista é longa e o rasto de morte e destruição não é muito diferente de outros países.

Nalguns desses conflitos, procurávamos uma identidade (até hoje procuramos essa identidade?) e havia uma compreensível e altruísta entrega de cada um, convictamente, oferecendo-se de corpo e espírito para defesa de valores criados em cada um.

Isso não nos torna mais pacíficos, mas leva-nos ao nível daqueles que se bateram em nome daquilo em que acreditavam. Não desculpa matanças de inocentes, atos inexplicáveis, ódios de estimação. O bom senso manda que respeitemos o que fomos, para melhorar quem somos e o que queremos ser. Por vezes, a história deve-nos explicações. É só isso.

Vivemos, é provável, os 40 anos mais pacíficos desta história, tornámo-nos exemplo de outros povos, temos um território onde a paz é apenas contrariada pelo comportamento de alguns, e nesses alguns saudosistas de conflitos e de um passado nada glorioso, ganham cada vez mais coragem para atiçar fogueiras alheias, com uma vontade intensa de poder e restauro de alguns avós que nos tiraram a dignidade.

“Só neste país” – expressão que tanto ouvimos – há um nível de tolerância tão elevado, uma capacidade tão marcante de respeitar a(s) diferença(s), uma procura de equidade tão louvável. Até nos queremos livrar das armas que temos em casa – ao contrário de outros países onde as populações se armam e protagonizam atos de loucura.

Somos apontados como exemplo, além fronteiras. Quando recebemos alguns visitantes, dizem-nos: sabem que vivem num paraíso?

Procuramos mostrar-lhes que nem tudo é água de rosas e muito menos florzinhas. Temos uma justiça que agora se transformou em reality show e reality shows onde as injustiças se cometem sem qualquer leitura moral, temos gente de costas voltas e uma multidão de ressabiados que se esconde nas redes sociais com uivos agastados a enfeitar cada palavra e a esconder-se na sua pródiga cobardia.

Sim, morremos em Ourique, na Flandres, na António Maria Cardoso, nas matanças da Páscoa, de La Lys, de Nambuangongo, no sidonismo, no 28 de maio de 1926, em Alcácer Quibir, em Villanueva del Fresno, em Peniche, no Tarrafal… E morremos dentro de nós, sempre que não entendemos porque nos negam a brandura.

 

Alexandre Honrado
Historiador

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