Folhetim | Benvinda – Uma História de Emigração (15º. Episódio)

FOLHETIM | Uma rubrica de Licínia Quitério

 

FOLHETIM – A História de Benvinda (15º. Episódio)

E agora? Agora estamos a chegar ao fim e depois, quando a gente já estiver a dar contas a Deus, ninguém vai querer saber disto para nada. Os filhos? Ai, os filhos.

Benvinda suspira muito quando fala dos filhos. Raramente refere o Basílio e se o cita é de raspão, a fugir das minhas interrogações, nada de pormenores, o filho foi um monte de preocupações, de desgostos, Basílio perdido na cidade, atraído pela escória de vagabundos que admirava, pela presumível leveza com que levavam os dias, pelo atrevimento nas sortidas rua fora, agarra que é ladrão e nunca os agarravam, pelo dinheiro que não faltava para a “transacção”, em barracas abandonadas por emigrantes e ainda não tomadas por outros que teimavam em chegar de vários mundos, de peles escuras, de chaleira pendurada na trouxa. De quantas vezes Basílio se perdeu em descaminhos e escuridões, Benvinda não quer saber a conta. De como o pouco ouro que tinha foi desaparecendo de casa, por muito que o mudasse de esconderijo, Benvinda nunca fala, porque mais que o minhoto coração que foi levado lhe dói o coração dentro do peito.

Ela vem todos os anos, uma ou duas vezes, traz os cachopos, lindos, espertos. Tenho pena que não arranje um homem bom que fique ao lado dela, uma mulher sozinha não tem jeito nenhum, mas ela é daquele feitio, não sei a quem saiu. Ele só veio cá duas vezes, pegou-se numa zanga com o pai, coitado do pai, que tantas vergonhas passou por causa dele, o pai que tem sido tão nosso amigo, Deus mo guarde por alguns anos ainda, que é a minha companhia.

Brigitte, a menina francesa, filha de famílias da alta burguesia, de fortes apelidos e avultados bens, cedo se afeiçoou à coleguinha portuguesa, no liceu de tantas nacionalidades. Mais do que as semelhanças em inteligência, honestidade e anseio de liberdade, uniu-as as diferenças que uma na outra descobriam, vindas de mundos tão distantes, mutuamente desconhecidos, que se tornaram, uma para a outra, livros de vida, de preciosa leitura. Benvinda não apoiava aquela amizade, desconfiava, Berta, os ricos sempre acabam a rir-se de nós, mas as miúdas continuavam amigas, confidentes, uma diamante outra granito, as duas preciosas na força com que viviam, com que ajudavam a viver.

Um dia destes fechamos a venda, isto cada vez dá menos, hoje todos têm carro, vão à vila, aos supermercados, hoje é tudo em grande, para pobreza já chegou o outro tempo, o pior é que a alma não cresceu, parece que cada vez nos importamos menos com os outros. Isto sou eu a pensar, que sou uma ignorante, os meus livros foram a enxada, as costas dobradas, a estalarem de dores, depois na França continuei a sina de me dobrar, de ajoelhar, ménage é ménage, era duro, pois era, eram muitas horas, muitas, às vezes parecia que rebentávamos, mas o português sempre se desemerda, não tem outro remédio.

 

(continua)

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