Crónica de Alice Vieira | A Herança de Alice

A Herança de Alice
Alice Vieira

 

Durante muitos anos detestei chamar-me Alice.

Alice era herança de uma avó que nunca conheci, mas que sempre ouvi dizer não ser boa de assoar. De resto, basta olhar para a única fotografia que dela me ficou para acreditar no que me diziam.

E nem a terrível alternativa de me poderem ter dado o nome de Gertrudes, a outra avó, me fazia aceitar melhor o meu destino onomástico.

Porque naquele tempo ninguém se chamava Alice.

E nada pior que ser Alice num tempo de Anas Paulas.

Até que um dia me reconciliei—para sempre– com o nome.

E tudo por causa da “Alice”, de Lewis Carroll .

Tanto “No país das Maravilhas” como “Do Outro Lado do Espelho”.

Eu lia aquilo e sentia-me a rainha lá de casa. A rainha de todas as casas.

Com aquela Alice, caramba!, eu podia andar de cabeça erguida.

Não me lembrava de nenhum livro onde a heroína se aproximasse nem dos calcanhares daquela.

As princesas das histórias geralmente não tinham nome.

Nome de gente, quero eu dizer.

E as meninas das outras histórias que eu lia não faziam nada de tão extraordinário que me fizesse invejar-lhes o nome. (Ainda a que mais se aproximava era a Sofia, dos “Desastres” da Condessa de Ségur, e mesmo assim o que de mais extraordinário ela conseguia era calçar sandálias sem meias no inverno, e andar à chuva de manga curta .Para heroína, convenhamos que era poucochinho.)

De repente, encontro a salvação.

Com esta Alice eu podia cair por precipícios e voltava sempre ao de cima. Com ela podia crescer e encolher quando era preciso, chegar a todas as mesas e ser dona de todas as chaves (era só beber umas gotinhas do frasco!), lanchar com lebres e chapeleiros sempre atrasados para coisa nenhuma, enfrentar as ameaças das Rainhas Más, ser tu cá tu lá com gatos sem corpo, unicórnios e cavaleiros, grifos e dodos, morsas e  tartarugas falsas, ouvir conselhos de lagartas que fumavam cachimbo, jogar croquet com flamingos a servirem de tacos, e conversar com ovos em cima de muros.

Com a Alice aprendi a ser Alice.

A fazer perguntas.

A questionar a realidade à minha volta.

Talvez os anos me tenham acalmado um pouco, talvez já não more em mim a irreverência e a saudável loucura que bebi nas suas páginas.

Mas uma coisa guardo até hoje: o enorme, incomparável prazer de festejar os “desaniversários”.

Quem me conhece sabe que festejo tudo, absolutamente tudo o que há para festejar—e, quando não há, invento.

Por isso agora, que o meu verdadeiro aniversário já se festejou há dias, eu vou desaniversariando diariamente,  com esta alegria de estar viva num mundo de loucos—tal qual ela me ensinou.

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