Crónica de Alexandre Honrado – Loucura, cultura, ambiguidade

O mundo não é louco. Somos nós, os habitantes do mundo – os que espezinhamos, mudamos, torcemos o mundo à nossa vontade – que percorremos os mais variados degraus da loucura e com isso estragamos a intensa casa em comum que não respeitamos.

Em boa medida, a loucura nem devia ser para aqui chamada, por constituir-se tão somente num estado de desinquieta quietação que leva, da agitação ao repouso, os nossos piores momentos.

É bárbaro, e não louco, o mundo em que vivemos. Que teima nos mesmos erros do passado: segregação, preconceito, racismo, homofobia, sexismo, discriminação, violência, terrorismo, assassínio, coisas dessas que não são mais do que fascismo nas suas várias formas.

Sempre que me perco nestas análises, faço-o porque me amedronto. Tento explica-las culturalmente.

Falando de loucura, de mundo, de cultura, outras ideias logo me ocorrem.

Dizem que o geógrafo Orlando Ribeiro referia que alguns estados eram desenhados pela ponta do lápis e outros na ponta da lança. É um pouco o que se passa na interpretação dos monstros sagrados da cultura. Uns chegam até nós com a suavidade de certos desenhos nobres e outros no debate mais aceso, na batalha das ideias. Cervantes e Shakespeare, por exemplo. Reúnem consensos. O que escreveram ganhou a imortalidade. Ultrapassaram os seres humanos, como a loucura é capaz de o fazer, sobrevoando a realidade e acolhendo-se nos seus recantos de impossibilidades.

Mas reservando ao culto o que o cânone exalta, seja permitido lançar para o raciocínio a pergunta: o que seria de nós sem a loucura?

Se a loucura e a literatura fossem elevações de um ponto convergente, pelo menos formas meteóricas – suspensas num espaço, elevadas (no ar), pontos luminosos momentâneos, construções imateriais e, todavia, determinantes – a tradição já as teria unido como irmãs aprisionadas num hospício de deuses.

Com algum atrevimento crítico, Shoshana Felman[1](2003) já considerou que a literatura e a loucura se identificam por serem “irredutíveis à interpretação”. Mas na aceitação do pressuposto de Michel Foucault[2] (2002) de que as representações da loucura se dividem em teóricas e trágicas, o seu exercício literário, em Hamlet e em Quixote, permite (-nos) a aplicação de grelhas próprias, para análise e entendimento do texto como um espaço de exclusão – talvez um manicómio? – e ainda a leitura como um espaço de tratamento dos portadores de sofrimento mental (tendo presente que a desmistificação da loucura é, em si, um processo de humanização).

Não esquecemos, claro, que Foucault defendia, em leito de análise, teses que se inscrevem, entre outros aspetos, na vaga antipsiquiatria dos anos 1960[3]. (Quétel, 2014)

As figuras maiores de Cervantes e Shakespeare quando manifestadas sob a voz de Quixote e Hamlet, o cavaleiro entre brumas do pensamento e o príncipe atormentado pelo que pensa e crê pensar, são alter-egos de quem escreve ou a descrição de paradigmas humanos, afinal com tanta proximidade a cada um de nós.

Hamlet tenta desvendar o homem que o ocupa; Quixote, ambiciona descobrir os enigmas do Universo. É a síntese da própria história humana, do indivíduo, do individual, da individuação, do ser Glocal que nos dias de hoje duvida de si, de quem é – e interroga a sua relação com o espaço aparentemente infinito do Universo onde deseja e procura insistentemente explicações para a (sua) solidão. O ser humano que hesita em interpretar-se antropologicamente como um não-lugar, como nos enunciados de Marc Augé ou a assumir o seu lado oculto, ao jeito de Edward T. Hall

Entre o embaixador da morte – Hamlet – e o emissário justiceiro – Quixote – ou entre as névoas de Cervantes e o mundo esclarecido de Shakespeare, encontramos cada um de nós. Justificamo-nos pela sabedoria ou pela “psiquiatria popular” de que falavam Freud a Richard Flatter[4], essa mesma que guia a nossa percepção do que é louco e as nossas rejeições de quem é louco[5]. (Plaza,1990)

Mas… Repito que o mundo não é louco. É o que dele fazemos. É o que permitimos a cada um de nós. E por hoje, chega-me. Vou ler Shakespeare ou Quixote, lutar com fantasmas e moinhos de vento, vou fazer tudo menos enlouquecer por aqui.

 

Alexandre Honrado

Historiador

 

[1] FELMAN, Shoshana e EVANS, Marta Noel. (2003)

Stanford University Press

[2] FOUCAULT, Michel. (2002). A História da Loucura, Perspectiva. São Paulo.

[3] QUÉTEL, Claue. (2014) História da Loucura da Antiguidade à invenção da Psiquiatria, vol I, Edições texto&grafia, Lisboa

[4] Naturalista austríaco nascido em 1903, especialista do estudo do comportamento animal e Prémio Nobel em 1973.

[5] PLAZA, Monique. (1990). A Escrita e a Loucura, Editorial Estampa, Lisboa.

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