Folhetim | Benvinda – Uma História de Emigração (14º. Episódio)

FOLHETIM | Uma rubrica de Licínia Quitério

 

FOLHETIM – A História de Benvinda (14º. Episódio)

Ai senhora nem me fale dessas viagens, a gente já entrávamos no carro esfalfados, arrumar aquela bagagem toda, até ao colo trazíamos os tachos. Do que me lembro é de apanharmos uma caloraça a atravessar a Espanha e de eu agoniar e vazar tudo borda fora do carro, que nas “auto-routes” não se pode parar e o meu Bento a gritar, ó mulher aguenta-te até sairmos da “auto-route” mas quem é que diz que eu me segurava. Parávamos só duas vezes para comer e fazer o que o corpo pedia. Sempre a andar, sempre a andar, estrada e mais estrada, a canalha quando não dormia refilava, ainda falta muito, a porcaria do carro não dá mais, e eu, calem-se lá que mais vale ir devagar do que ter para aí algum desastre, valha-nos a Senhora da Boa-Viagem.

Ao longo de anos e anos, no mês de Agosto, que aprenderam a dizer de ”vacances”, mas de que continuavam sem saber o significado, Benvinda e o marido trabalharam na reconstrução da casa. Só descansavam nos dias da festa anual do orago da aldeia, em que vestiam os fatos melhores e iam até ao arraial, onde sempre compravam umas rifas, à missa de festa, à procissão, e até dar um pé de dança, que os tocadores nunca faltavam e os bailadores também não. Passados os dias de música e foguetório, era voltar aos baldes de massa, ao assentamento do chão, ao envernizamento das madeiras e a tudo, tudo, de que compõe a construção e de que são capazes os construtores. Acrescentar um quarto, uma casa de banho e uma cozinha à velha e exígua casa de família, era obra para muito suor e algum dinheiro. Afadigavam-se no trabalho, a casa era o sinal indispensável do sucesso na emigração, do triunfo sobre a miséria e a adversidade, da mais-valia da aventura por caminhos amargos. A casa tão ampla quanto possível era a vingança sobre a exiguidade dos espaços que habitaram, desde o contentor de má memória até aos dois minúsculos quartos a que os donos chamavam pomposamente “a casa da porteira”. A casa era a afirmação do retorno, da continuidade na terra que era a sua e que a má sorte quis tivessem de deixar.

Os anos foram acrescentando a casa, estava bonita deveras, com as suas janelas e portas de alumínio reluzente, a garridice dos vasos de cimento de um lado e outro da entrada, o murete de pilastras pintado de branco, o nicho escavado nos azulejos da frente da casa a guardar a imagem do Senhor do Calvário.

Pareciam infindáveis as obras de Agosto, como parecia eterna a condição de emigrante.

 

(continua)

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