Crónica de Alice Vieira | Paixão à chuva

Paixão à chuva
Alice Vieira

 

Toda a gente sabe que, em alturas de temporal, as coisas tomam sempre outras proporções. Neste momento acabei de fechar todas as portas e janelas, sobretudo estas aqui da sala onde vejo televisão.

Acontece que estas minhas janelas dão para o telhado do prédio. E raramente me lembro de que elas existem,  porque o telhado de um prédio de sete andares não é propriamente um sítio onde as pessoas passeiem.

Por isso há bocado, estava eu a re-ver e a re-ouvir as maravilhas do último Festival da Canção quando me apercebi de um leve rumor pelo telhado, e confesso que não liguei.

Pensei que o vento devia ter aumentado, possivelmente a chuva também – pus mais um xaile nos ombros e lá fiquei a ouvir aquela coisa do jardim, e agora sou eu que rego, e mais não sei o quê, e a tentar perceber o que tinha aquilo de tão sensacional para levar o júri a premiá-lo.

Mas adiante.

Pelo telhado os rumores tornavam-se mais fortes, aquilo já não parecia apenas vento nem chuva ( que não paravam)  , aquilo já era barulho mesmo  a sério e—pior do que isso—eu tinha quase a certeza de ouvir vozes.

Temi o pior.  Encolhi-me no meu canto, fechei a luz para que lá de fora ninguém se lembrasse de que ali estaria gente—mas, de repente, eram pancadas e mais pancadas no vidro da minha janela. Pancadas a sério. Não apenas vento e chuva. Pancadas mesmo, e  gritaria, e um palavreado que eu não conseguia entender.

Pensei que só podia ser assalto, alguém a tentar arrombar a janela e entrar pelo telhado. Agarro no telemóvel, já preparada para chamar a polícia mas, como as pancadas na minha janela não abrandavam , levantei muito ligeiramente o estore.

O suficiente para ver, do outro lado do vidro, lá fora à chuva e ao vento, um homem enorme, a ocupar quase todo o vidro , com ar de poucos ( de nenhuns… ) amigos, que olhava para mim e gesticulava furiosamente. Baixo rapidamente o estore  mas ele bate ainda com mais força.

Encho-me de coragem, abro uma fresta minúscula da janela, o vento pelo telhado até uiva, e é então que percebo os berros dele : “gato!!! gato!!! “ no meio de uma algaraviada estrangeira que não consigo entender.

Tento em inglês e francês perguntar-lhe que língua fala, mas ele nem me reponde.

“ Está à procura de um gato?”, arrisco.

Diz que sim com a cabeça, e grita, e repete sempre “gato! gato!”

“O seu gato fugiu?” pergunto.

Volta a acenar com a cabeça, e eu tento explicar-lhe que por aquela janela não entrou gato nenhum, e ele abre muito os olhos, “no gato?? no gato??, no gato here??”  e eu volto a repetir que não, ”no gato here”– e é então que aquele homem enorme, à chuva e ao vento, no cimo de um telhado, desata num pranto como se fosse uma criança, “gato, gato…my gato…my gato…lindo gato…”

Depois dá meia volta, afasta-se , em risco de cair dali abaixo, o choro cada vez mais forte, a condizer com a chuva, e vou-o sempre ouvindo, enquanto ele anda às voltas pelo telhado gritando, “gato!! gato! my gato!!”

Juro : se eu tivesse um gato cá em casa , era bem capaz de lho dar. Com a certeza de que ninguém o iria tratar melhor. Porque um homem daquele tamanho, com aquela cara de poucos amigos, e de repente a chorar—aquilo sim, aquilo era mesmo um caso de paixão.

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