Mulheres de seios azuis dão de mamar a meninos de cabelos loiros. Uma vegetação luxuriante. Uma cascata e umas gotas de água multicolores que nos embriagam. Passeiam animais que desconheço por árvores encantadas. Não sei onde estou, não sei como cheguei aqui.

Decido não me preocupar com nada. Viver como eles vivem, amar como eles amam. Ser mais um entre todos os outros. Como dos seus comeres. Comidas partilhadas. As crianças brincam. As mulheres de seios azuis passeiam a sua beleza. Os homens, louros e elegantes, vão à sua vida.

Sei que apanhei um transporte estranho. Um transporte híbrido, um estranho todo o terreno. Sei que ninguém tomava conta do seu destino. Questionei tal facto. A resposta que recebi foi doce e clara:

«Não tens que te preocupar, desce na última paragem, desce quando vires uma placa que diga: O Último desejo.»

Assim fiz e aqui estou. Aqui onde ninguém incomoda ninguém. Onde tudo aparece, como que por magia, pronto para nos servirmos. Aqui ninguém grita para dentro. Ouvem-se os prazeres e os êxtases da vida. Gemem-se os delírios.

Esta gente tem um brilho especial nos olhos e, dizem os que a conseguem ver, uma aura especial. Uma luz que sai de si e inunda todos quantos se acercam. É essa luz que nos alumia durante a noite. O céu sempre limpo. As estrelas a sorrirem-nos nos seus geométricos desenhos.

Talvez fique por aqui. Talvez não. Somos uns seres muito especiais. Temos sempre mais um desejo para além do último. Uma vontade que nos entra no corpo como uma faca e, por vezes, nos faz de mudar de destino.

Tomo banho na cascata. É forte a água que me cai sobre a cabeça. O cabelo a tomar tonalidades diferentes. Cada vez estou mais parecido com os que aqui já estavam. Só nos cumprimentamos com olhares. Olhares cheios de palavras e de afectos. Milhares de vidas em cada olhar.

Nunca ouvi, até agora, alguém rezar ou pedir algo a quem nunca viu. Só quando é noite, olham para o céu e adoram a alegria das estrelas. Falam uma linguagem universal que vou tentando aprender. Porque aprender é sempre importante.

Não me perguntem porque as mulheres têm os seios azuis nem porque usam o cabelo quase rapado. Não me perguntem porque são loiras todas as  crianças.  Não me perguntem porque os homens usam cabelo comprido. Acabei de chegar e estou a conhecer outra realidade.

Posso dizer-vos que, quando vi a placa a dizer “O Último Desejo”, me custou a acreditar. Tive dúvidas se descia ou não. Mas a vontade de conhecer e saber venceu todas as tibiezas. Não sabia o que ia encontrar. Não tive nenhuma recepção especial. Fui mais um que ali se decidiu cumprir e já está.

Que viagem esta. Eu sabia que um dia seria assim. Quem viaja muito acaba por encontrar o insólito vestido de  belo. Terras do nunca visto. Lugares do eterno sonho.

Tudo não passa de  mais um lugar especial. Porque especial é  tudo o que vive na nossa cabeça, nos nossos sonhos, nas aventuras que arriscamos.

A cascata de águas multicolores continua a jorrar alegrias. As mulheres de seios azuis dão de novo de mamar às crianças loiras e eu vou aprendendo.

Jorge C Ferreira Jun/2016(88)(Reino de Valência)

Publicado em 13 de Junho 2016

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