Se me contas, dói-me. Se não me contas, dói-me na mesma. É uma dor intensa, uma dor que me preenche o corpo. Que me percorre o desejo de ter uma não dor. De saber e de não saber. Uma desilusão e a morte antes do tempo. Como se houvesse tempo para a morte.

Parece ser um chão de  vidros quebrados o caminho que percorro. Uma terra sem lei. Um rasto de sangue. A vida a despejar-se em vermelho vivo. Não chegarei ao monte do saber. Ficarei por aqui. Uma terra que não me pertence, porque nada nos pertence. É tudo uma ilusão. Tudo se derrete nas nossas mãos de defunto. O corpo frio e encomendado. Os sapatos a apontar para o céu. O despojo final.

Quando chegarei aos caminhos atapetados por flores e sedas finas? Acho que nunca. Acho que nunca vou provar tais dissabores. Dão-me volta ao estômago certas mordomias. Por vezes vomito. Sou eu próprio o vómito de mim. Um arranque que parece final e afinal nada. Continuo a vomitar.

Quantos cheiros passam por mim. Cheiros horrorosos de gente inundada de perfumes caros para tapar a podridão que carregam. Gente a cheirar a dinheiro mal lavado. Corpos de notas e peles caídas. Uma trampa que nenhuma sanita aceita. Uma azeda maneira de estar. O lixo mais reles.

Passa a camioneta do lixo, vai carregada de corpos sem sentido, gente que se perdeu por tanto querer. No ventre da camioneta alguma coisa mastiga aqueles corpos, os esmaga, o aterro vai deixar de ser sanitário. Vão dar cabo de tudo, aqueles restos de não gente. Nem os ratos os vão comer.

Passa um velho avarento. As mãos encarquilhadas, as unhas enormes, um nariz afilado. Leva toda a miséria que promoveu escrita no corpo. Lê-se à vista desarmada. Uma tatuagem para a vida. Um caminho para a morte. Também ele vai morrer, agarrado ao dinheiro que lhe vai escapar das mãos. Os herdeiros a banquetearem-se com os desperdícios, como os abutres que rondam a morte.

De repente um barulho intenso, desperta-me. Levo a mão ao telemóvel e vejo as horas. São 7 da manhã. Levanto-me e vou à varanda espreitar. Estão a lavar a rua com mangueiras de pressão, o motor numa carrinha completa o barulho. É então que me vem à ideia um modo para acabar com a corrupção. Um exército armado destas mangueiras, os corruptos levados pela água, nas sargetas bocas abertas de tubarões, os dentes duplos e afilados a engolirem toda aquele cáfila.

Urinam sangue à porta dos hospitais, doentes em lista de desespero. Lista de desespero para a morte. Lista de desespero para o sofrimento. Tudo empestado. A epidemia que se esperava. Crianças doentes e comprimidos para as dores. Para estas dores já não há comprimidos. É a dor final. O fatal encontro. Uma negra cantata. Fitas, laços e duas flores.

Os que fogem da guerra e da miséria, dos tiranos e das terras sem lei. Estão a ficar abandonados em campos de despejo. Constroem-se selvas no coração da Europa Fazem-se negócios de milhões com esta gente. A mesma Europa entrega dinheiro para pagar por pessoas que não quer. Onde chegámos? O Tráfico humano é hoje o negócio mais lucrativo do Mundo. Ninguém põe cobro a isto?

Se me contas, dói-me. Se não me contas, dói-me na mesma.

Jorge C Ferreira Jun/2016(87)(Reino de Valência)

Publicado em 06 de Junho 2016

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