03 JAN 2017 | Poemas e Poetas | Licínia Quitério

Poemas e Poetas

 

VASCO GRAÇA MOURA (1942-2014) – Poeta, tradutor de grande mérito, a ele se deve as traduções de Vita Nuova e da Divina Comédia, de Dante, pelas quais recebeu o prémio Pessoa, em 1995. A sua poesia revela influências da poética clássica, a que confere uma grande pureza estética  e alguma inovação sintáctica. Cultivou o soneto, primorosamente, fazendo perpassar em alguns deles a sombra de um poeta aristocrata de salão, talvez o último da sua geração. Muito vasta a obra que nos deixou, não só no campo da poesia e da tradução, mas também do ensaio e da ficção. De “Antologia dos Sessenta Anos”, o poema BLUES DA MORTE DE AMOR. De ler, reler, saborear, o engenho poético, a incrível musicalidade.

já ninguém morre de amor, eu uma vez

andei lá perto, estive mesmo quase,

era um tempo de humores bem sacudidos,

depressões sincopadas, bem graves, minha querida,

mas afinal não morri, como se vê, ah, não,

passava o tempo a ouvir deus e música de jazz,

emagreci bastante, mas safei-me à justa, oh yes,

ah, sim, pela noite dentro, minha querida.

 

a gente sopra e não atina, há um aperto

no coração, uma tensão no clarinete e

tão desgraçado o que senti, mas realmente,

mas realmente eu nunca tive jeito, ah, não,

eu nunca tive queda para kamikaze,

é tudo uma questão de swing, de swing, minha querida,

saber sair a tempo, saber sair, é claro, mas saber,

e eu não me arrependi, minha querida, ah, não, ah, sim.

 

há ritmos na rua que vêm de casa em casa,

ao acender das luzes, uma aqui, outra ali.

mas pode ser que o vendaval um qualquer dia venha

no lusco-fusco da canção parar à minha casa,

o que eu nunca pedi, ah, não, manda calar a gente,

minha querida, toda a gente do bairro,

e então murmurarei, a ver fugir a escala

do clarinete: — morrer ou não morrer, darling, ah, sim.

 

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