14 MAR 2017 | Poemas e Poetas | Licínia Quitério

SÁ DE MIRANDA (1481?-1558), o poeta do Neiva, assim chamado pela sua ligação ao Minho, para onde foi viver o seu retiro, desiludido com as frequentes intrigas na corte de D. João III. Deste seu desentendimento com o ambiente da corte são prova os seus conhecidos versos.” Homem de um só parecer,/D’um só rosto, uma só fé,/D’antes quebrar, que torcer,/Ele tudo pode ser,/Mas de corte homem não é.”.

Começou por escrever à maneira dos trovadores da época, nas formas tradicionais da redondilha. Viajou para Itália, onde conviveu com personalidades do movimento renascentista, e entusiasmou-se pela nova estética literária. No seu regresso a Portugal, foi o introdutor do Renascimento literário, cultivando o soneto, a canção, a sextilha e o verso decassílabo. Embora de linguagem forte e hermética, Sá de Miranda continua a ser, depois de Camões, o nosso escritor mais lido do século dezasseis. Aqui fica um dos seus SONETOS.

 

O sol é grande, caem co’a calma as aves,

do tempo em tal sazão, que sói ser fria;

esta água que d’alto cai acordar-m’-ia

do sono não, mas de cuidados graves.

 

Ó cousas, todas vãs, todas mudaves,

qual é tal coração qu’em vós confia?

Passam os tempos vai dia trás dia,

incertos muito mais que ao vento as naves.

 

Eu vira já aqui sombras, vira flores,

vi tantas águas, vi tanta verdura,

as aves todas cantavam d’amores.

 

Tudo é seco e mudo; e, de mestura,

também mudando-m’eu fiz doutras cores:

e tudo o mais renova, isto é sem cura!

 

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