23 MAI 2017 | Poemas e Poetas | Licínia Quitério

GONÇALVES CRESPO (1846-1883), poeta, tradutor, deputado, é considerado o iniciador do Parnasianismo em Portugal, movimento nascido em França, por oposição ao romantismo, que propunha recuperar os valores estéticos do classicismo. “A arte pela arte” foi a frase aplicada ao movimento, que representou a expressão poética do positivismo filosófico. Os poemas de Gonçalves Crespo estão reunidos nas obras “Nocturnos” e “Miniaturas”. Abaixo fica um dos seus mais conhecidos poemas, O JURAMENTO DO ÁRABE.

Baçus, mulher de Ali, pastora de camelas,

viu de noite, ao fulgor das rútilas estrelas,

Vail, chefe minaz de bárbara pujança,

matar-lhe um animal. Baçus jurou vingança;

corre, célere voa, entra na tenda e conta

a um hóspede de Ali a grave e inulta afronta.

– “Baçus!” – disse, tranquilo, o hóspede gentil –

“Vingar-te-ei com meu braço: eu matarei Vail”.

 

Disse e cumpriu.

 

Foi esta a causa verdadeira

da guerra pertinaz, horrível, carniceira,

que as tribos dividiu. Na luta fratricida,

Omar, filho de Anru, perdera o alento e a vida.

Anru, que lanças mil aos rudes prélios leva

e que em sangue inimigo, irado, os ódios ceva,

incansável procura, e é sempre embalde, o vil

matador de seu filho, o tredo Mualhil.

Uma noite, na tenda, a um moço prisioneiro,

recém-colhido em campo, o indómito guerreiro

falou severo assim:

– “Escravo, atende e escuta:

Aponta-me a região, o monte, o plaino, a gruta

em que vive o traidor Mualhil; dize a verdade;

dá-me que o alcance vivo, e é tua a liberdade!”

E o moço perguntou:

– “É por Alá que o juras?”

– “Juro!” – o chefe tornou.

– “Sou o homem que procuras!

Mualhil é o meu nome: eu fui que despedacei

a lança de teu filho e aos pés o subjuguei!”

E, intrépido, fitava o atónito inimigo.

Anru volveu:

– “És livre! Alá seja contigo!”

 

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