09 MAI 2017 | Poemas e Poetas | Licínia Quitério

EGITO GONÇALVES (1920-2001), poeta, editor, tradutor, os seus poemas atravessam um período temporal entre as correntes neo-realista e surrealista. A sua escrita não abandona um certo lirismo, de mistura com alguma amarga ironia, mesmo quando se mostra um poeta da liberdade e do combate. Deixou 20 livros de Poesia, recebeu vários prémios literários, mas hoje está muito longe dos escaparates, passando talvez aquele período de nojo que tantos nomes grandes sofrem,  perante a avalanche de novidades, tantas delas não mais do que episódicas e inconsequentes. Aconselho a leitura do seu poema mais conhecido – NOTÍCIAS DO BLOQUEIO -, que aliás deu nome a uma das revistas que Egito fundou. Porque demasiado extenso para este nosso espaço, em seu lugar deixo COM PALAVRAS que, espero, vos abrirá o apetite para mais leituras do autor.

Com palavras me ergo em cada dia!

Com palavras lavo, nas manhãs, o rosto

e saio para a rua.

Com palavras – inaudíveis – grito

para rasgar os risos que nos cercam.

Ah!, de palavras estamos todos cheios.

Possuímos arquivos, sabemo-las de cor

em quatro ou cinco línguas.

Tomamo-las à noite em comprimidos

para dormir o cansaço.

As palavras embrulham-se na língua.

As mais puras transformam-se, violáceas,

roxas de silêncio. De que servem

asfixiadas em saliva, prisioneiras?

Possuímos, das palavras, as mais belas;

as que seivam o amor, a liberdade…

Engulo-as perguntando-me se um dia

as poderei navegar; se alguma vez

dilatarei o pulmão que as encerra.

Atravessa-nos um rio de palavras:

Com elas eu me deito, me levanto,

e faltam-me palavras para contar…

 

Licínia Quitério

PubPUB

Achou este artigo interessante, partilhe-o com os seus amigos!

VISITE TAMBÉM A PRIMEIRA PÁGINA DO JORNAL DE MAFRA

Partilhe com os seus amigos!