06 Jun 2017 | Poemas e Poetas | Licínia Quitério

Quando iniciei esta rubrica de Poemas e Poetas decidi que só apresentaria poetas já falecidos. Foi um critério como qualquer outro e a ele tenho sido fiel. O que eu não queria é que aqui viesse a caber o nome de ARMANDO SILVA CARVALHO, o Poeta, nascido em 1938, que nos deixou na passada semana. Jornalista, professor, tradutor, entre muitos outros autores, de Marguerite Duras, de Jean Genet. Deixa uma vasta obra poética. Foi um dos grandes do nosso tempo. Do seu último livro, DE AMORE (2012),  eis o Poema A NÉVOA DO NADA.

Deu em cinzento o dia.

A cor da paciência amorosa cobre o corpo

E o mar confundido na névoa

Tem a resposta abstracta

Nos sentidos.

Os sons são a metamorfose dos gemidos do mel,

E agridem na sua rigidez cinzenta

A audição passiva.

Os olhos no opaco,

O sabor do vento transtornado,

O olfacto húmido de salinosa angústia

A desflorar a pele,

O frio abraço da separação

Da luz.

Uma lição sensual, arrastada pela bruma

Que dos versos sempre soube ser

A mais fiel amante.

Altas as aves, recortam-se no céu,

Indecifráveis, vãs.

É a vida temível que se ateia nas vozes

Mais ocultas da melancolia.

O tempo adensa sem saber o nada,

O amor é o dia.

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