04 Jul 2017 | Poemas e Poetas | Licínia Quitério

ANTÓNIO JOSÉ FORTE (1931-1988), Poeta surrealista, irónico, anarquizante, ligado ao grupo  dos surrealistas do Café Gelo. Uma voz poética libertária, única, intransigente na defesa da obrigação ética do poeta. Durante vinte anos percorreu o país, ao serviço da Fundação Gulbenkian, com a carrinha carregada de livros, a biblioteca itinerante que prestou um serviço incalculável, criando e satisfazendo a curiosidade pela leitura a populações que doutro modo a ela não tinham acesso. A sua poesia anteriormente publicada e alguns inéditos voltaram a estar  no mercado. Do seu livro “Uma Faca nos Dentes”, aqui está o Poema RETRATO DO ARTISTA EM CÃO JOVEM.

 

Com o focinho entre dois olhos muito grandes

por trás de lágrimas maiores

este é de todos o teu melhor retrato

o de cão jovem a que só falta falar

o de cão através da cidade

com uma dor adolescente

de esquina para esquina cada vez maior

latindo docemente a cada lua

voltando o focinho a cada esperança

ainda sem dentes para as piores surpresas

mas avançando a passo firme

ao encontro dos alimentos

 

aqui estás tal qual

és bem tu o cão jovem que ninguém esperava

o cão de circo para os domingos da família

o cão vadio dos outros dias da semana

o cão de sempre

cada vez que há um cão jovem

neste local da terra

 

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