09 JAN 2017 | Crónica | Jorge C Ferreira

Crónica de Jorge C Ferreira
Já estamos noutro ano

 

Procuramos coisas que não encontramos. Coisas que se esfumaram com a ausência. Letras sumidas em folhas de papel amarelecidas e atadas por cordéis que se vão partindo. Fracos laços que não nos ligam a nada. Falsas promessas.

Um desarrumo que procuramos entender. Pessoas que procuramos encontrar em sinais e pegadas muito antigas. Examinamos o corpo e não somos capazes de interpretar alguns sinais menos exuberantes.  Sinais externos de internas dores. Sinais sem medidor disponível. Dores escondidas do olhar dos humanos. Vadias e escondidas perplexidades.

Procuramos sempre arrumar o difícil de entender. Arranjar armários e rótulos para o impossível de rotular. Vai haver, para nosso bem, sempre uma parte de nós que voa sem freios. Somos e seremos sempre a vontade imensa de voar.  Já é tempo de acabar com as correntes, mesmo as invisíveis, de as fundir na fornalha da liberdade.

Foi longo o caminho e sabemos que ainda não chegou a todo o lado. São direitos que se vão propagando. A verdadeira boa nova. Sabemos que, por vezes, parece haver retrocessos civilizacionais. Também sabemos, para  alegria nossa, que quem experimentou a liberdade é raro querer perdê-la. Sempre mais um passo a dar. Mais um caminho a desbravar.

A Liberdade é uma amante sedutora. Uma beleza que nos aconchega o ego. É também a responsabilidade que qualquer forma de amar nos traz. É um amor para acarinhar e cuidar. Um processo que vamos interiorizando, entranhando, até ser parte de nós. Passa a fazer parte do nosso “ADN”. Passa a ser uma responsabilidade maior.

Tanta coisa em desalinho, apesar de tudo. É raro encontrar o que nos faz falta. Muitas vezes guardamos em sítios improváveis o importante da vida, outras vezes o rasgamos em fúrias de limpezas inúteis. Papéis e mais papéis. Falta o tal “papel principal”. O que procuramos é sempre, para nós, o mais importante.

Há alturas em que nos distanciamos tanto de nós, que nos custa voltar a ser os mesmos. Esquecemos as gavetas dos armários e a organização da biblioteca que em nós mora. Estivemos noutros sítios e virados para novos saberes. Há um “puzzle” por reconstruir. Milhares de peças para ampliar o edifício em construção que somos. Que bom  transportarmos, em nós, uma insatisfação que nunca nos deixa.

De todas estas buscas, de todos os caminhos percorridos, do encontrado e do nunca visto, somos enformados. Um produto de difícil compreensão. Daí a dificuldade de perceber o porquê de determinadas opções colectivas. Mas o nosso comportamento no colectivo, num movimento de massas, é assunto para outra conversa.

Nunca nos devemos assustar com falas desbragadas. É uma falta de senso, uma fala da insegurança que, tarde ou cedo, acabará derrotada. Podem-me dizer que por vezes terá custos que doem. Tudo o que conquistámos e ambicionamos conquistar tem custos Doeu e faz doer.

– Hoje estás muito metido contigo! Que coisa te apoquenta?

Diz Isaurinda.

– Muita coisa me apoquenta e muita coisa me alegra. Sabes como sou.

Respondo.

– Sei que andas sempre a matutar…mas hoje acho-te muito meditabundo!

De novo Isaurinda.

– Procuro novos papéis e papéis antigos. Procuro razões de ser.

Digo.

– Tu achas que já há pouca coisa cá em casa? Tudo o que deixaste está aí.

Diz Isaurinda e vai…o pano na mão.

Jorge C Ferreira Jan/2017(103)

 

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