Chegar ao cimo de ti e ver as nuvens por baixo de nós. Um anel perfeito. Um ilusório colchão. Pensar viver nas tuas escarpas, assente sobre o vazio e ficar em êxtase. Saber do teu acontecer. Saber que vieste das profundezas do mar e aqui chegaste. Quem és tu?  Quem te fez explodir?

Uma canção sem nome que oiço ao longe. A fala das baleias, esse mais antigo falar que se propaga a quilómetros de distância. Uma melodia que não cansa. Um pouco como o canto das sereias que leva os marinheiros para a profundeza dos mares maiores. Que estórias tão belas são as estórias do mar e das ilhas encantadas. Das ilhas que aparecem e desaparecem numa volta de mar. Mar, apetece-me beijar a tua espuma.

Descer de ti num encanto sem nome e chegar junto das mulheres que nasceram da solidificação do magma. Mulheres de pedra e tão belas, tão intensas, tão generosas. Mulheres derrames. Mulheres fruto dos elementos. No chão de lava plantam os seus filhos, homens valentes.  Guerreiros que irão vencer todas as  adversidades. Fazer frente à dura cara do lugar.

O mar a toda a volta. Somos a ilha dentro da ilha. Um lugar por achar. O arpão que está a enferrujar e os botes a apodrecer. A lancha no cais. Resta um museu de toda a gesta destes homens sem medo.

Solta-se um foguete sinal de avistamento. Há velhos baleeiros sentados num muro à beira-mar que o olham e os seus olhos enchem-se de água. Desenham-se motivos da caça em dentes de enormes cetáceos. Essa vida tão intrigante. Esse óleo de cheiro tão intenso. Essa vontade indestrutível de viver.

Crescem intensos, entre as flores e as vinhas, guardadas dos ventos por muros de pedras vulcânicas, os homens do amanhã, meninos que vão mamar dos seios das mulheres de pedra. Mulheres que a si próprias se esculpiram. Uma beleza inteira e avassaladora. Uma força impossível de controlar.

Vulcânicas criaturas, produtos do mais profundo da terra, vindas numa torrente de fogo e logo solidificadas. Fortes e puras. Uma vida que passa sem se saber o tempo que vai fazer. Mulheres tripulantes daquele barco de pedra. Barco enorme e sem velas nem motor. Barco à deriva num oceano de tentações.

Mulheres sofrimento, mulheres amor. Um amor cantado ao fim do dia pelas cagarras. Mulheres tocadas pelo azul, pelo verde, pelas várias caras do mar. As suas mãos são de pedra mas como penas que nos percorrem a vida num sentir quase selvagem.

O vinho e as baleias esculpidas nos seus próprios ossos. Um vinho beijado pela lava. Vinho que nos embriaga os sentidos de beleza e um golpe de magia que faz crescer as crianças semeadas naquele chão.

Que vida tão ardente. Que quentura de sentir. Tanto amor à flor da pedra. Tanta beleza. Tanta cansada agonia. Tanto canto desafiado. Um verso. Um poema. Uma montanha e o mar. Que mais querem? Dou-vos tudo.

Assim fico. Despojado, a olhar as mulheres de pedra. Feiticeiras do meu sentir. Heroínas da minha estória. Vento que me arde na cara. O sal. A onda. A maré. Um barco que se perdeu na viagem. Uma velas bordadas com amor.

Encantei-me.

Jorge C Ferreira Jun/2016(90)(Reino de Valência)

Publicado em 27 de Junho 2016

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