Ai! As mulheres virgens e doces de tanto leite para tantos filhos. Os ventres rosados e belos, cheios de mares por conhecer. As ondas que as vidas fazem dentro delas. Que gente tão perfeita é esta. Gente que nunca antes tinha visto e que todavia não toquei.

Tenho medo de profanar o seu doce e angelical modo de estar. Quero só vê-las e admirá-las como um quadro de um pintor muito antigo. Um fresco de uma beleza que quase cega. Uma alegria nunca antes sentida.

Tudo o que vejo é como se estivesse deitado no chão da Capela Sistina a olhar para o tecto. É por isso que passei a dormir de olhos abertos, para que nada me possa escapar. Tudo aqui é diferente, até o tecto que nos cobre. As estrelas têm outra luz. O nosso abrigo é este céu estrelado.

De dia caminho. Vou a um rio de águas tão limpas que me custa lá entrar. Como encontrei tal coisa? Como aqui cheguei? Juro que desta vez não sei. Adormeci uma noite e acordei aqui sozinho. Sozinho continuo a andar. Estou em estado de deslumbramento. Perdi a voz. Esqueci-me de como falava. No entanto entendo tudo.

Não como, aqui nunca vi ninguém comer. Toda a gente tem os olhos muito brilhantes e as mulheres, já disse, os ventres rosados e com muita vida dentro. Andamos nus e descalços. Quando aqui acordei, acordei assim. Apenas uma pulseira de pano muito fina no braço. Tem algo escrito que não sei decifrar. Todos temos uma. Todos vivemos assim. Temos o mínimo e o mínimo é tudo para sermos felizes.

Nunca aqui vi cruzes, archotes, danças tribais, vozes alteradas, santarias. Um silêncio profundo e um céu tão brilhante que ilumina tudo e todos e esmaga a busca do belo. São profundos os olhares. Intensos os gestos. Belos os corpos. Apesar de tudo, é sempre uma calma que nos invade. Uma paz de caras abertas. Será isto vida? Não sei. Não me interessa. Vou continuar a deixar-me encantar.

Que caminho. Que caminhar. Que intensa maneira de estar. Não sei se é sonho, se é vida. Sei das belezas que encontro. Em cada olhar, um quadro. Em cada quadro, o belo. Cores que não conhecia. Paletas por inventar. Só arte, nem uma arma. Ninguém afronta ninguém. Há quem cante. Dolentes melodias. Arrastadas fantasias. Murmúrios, gemidos. Um canto que quase não se ouve. A apologia do silêncio.

A sabedoria. A alquimia na ponta de uns dedos mágicos e uma flor que nasce do nada, para nos libertar com o seu perfume. Uma flor que nunca tinha visto. Mil cores e mil cheiros. Mil encantamentos. O encantamento que se transforma em prazer e um prazer que não nos gasta as vontades. A inteireza a escorrer-nos pelo corpo. Inteiros nos sentimos.

O rio, lá está outra vez o rio. A água parece cheia de olhos. Um brilho que não cansa. Um espelho em que nos olhamos e nos olha. Quando mergulhamos naquelas águas, saímos outros. Os cabelos cheios de estrelas. O corpo cheio de luz. Não sabemos o que está no fundo deste rio. Não sabemos se tem fundo. Sabemos do seu encanto. Chega.

Será sonho, será vida?

Jorge C Ferreira Jun/2016(89)(Reino de Valência)

Publicado em 20 de Junho 2016

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