22 MAI 2017 | Saúde Mental e Ocupacional | Ciro Oliveira

 Depressão

 

A perturbação depressiva é uma entidade clínica que se enquadra nas perturbações do humor.

Na linguagem comum, o humor é equivalente ao estado de ânimo. De uma forma simples, pode definir-se humor como um sentimento difuso, generalizado e persistente ao longo do tempo, que vai colorir a forma como a pessoa perceciona o mundo e, consequentemente, se comporta. A sua vivência é muito explícita e qualquer um de nós, mesmo que não saiba porquê, sabe se está mais em baixo, irritável, bem ou maldisposto. Já as queixas são mais indiretas e traduzem-se na capacidade de sentirmos as coisas, de nos envolvermos em tarefas, no cariz das nossas recordações, no otimismo ou pessimismo das nossas expetativas. Assim, o humor infiltra todo o nosso psiquismo e a forma como vivenciamos o mundo, isto é, tudo o que se relaciona connosco e se passa à nossa volta. Evidentemente, todos nos podemos sentir mais tristes ou mais alegres, a maior parte das vezes em reação a algum acontecimento das nossas vidas. Tal variação não corresponde a patologia, exceto quando tal alteração permanece no tempo e torna a nossa vida mais difícil pela dificuldade em nos mantermos funcionais no seio da família, do trabalho e, sobretudo, bem connosco próprios.

A depressão não é um problema de saúde menor. Os dados mais recentes da Organização Mundial da Saúde, revelam que as doenças mentais afetam 322 milhões de pessoas, sendo que 4,4% destas sofrem depressão. Esta é mesmo uma das principais causas mundiais de incapacidade e a principal causa de suicídio (o suicídio é, a nível mundial, a 2.ª causa de morte na faixa etária dos 15 aos 29 anos). Em Portugal, a depressão afeta cerca de 6% da população, observando-se uma tendência para um maior consumo de medicamentos antidepressivos. Contudo, sabe-se que cerca de metade das pessoas deprimidas não têm acesso a cuidados atempados, o que condiciona negativamente a evolução da doença e poderá ter relação, entre outras causas, com a pequena fatia de apenas 3% do orçamento da saúde que é destinada à saúde mental.

A depressão é ligeiramente mais frequente no género feminino e resulta da combinação de diversos fatores: ambientais (consumo de álcool, ritmos biológicos), genéticos (até 3 vezes mais provável em pessoas familiares em 1.º grau de doentes com depressão) e de acontecimentos de vida que, logicamente, condicionam vários mecanismos biológicos, daí que o tratamento passe, por um lado, pelas psicoterapias e, por outro, pela prescrição de fármacos.

Ao contrário de muitas outras doenças, a depressão não se vê. É fácil perceber a dor e as dificuldades de uma fratura do pé. Todos somos capazes de entender as dificuldades de mobilidade ao ter um pé engessado ou ter de andar de canadianas. Todavia, a dor da depressão, que nada tem de imediatamente visível que condicione a pessoa, é, muitas vezes, incompreendida e confundida com preguiça, falta de querer, falta de compromisso. Não é raro ouvir-se em consulta comentários depreciativos dos familiares em relação aos doentes, ou, inversamente, os doentes dizerem que só agora perceberam o que é isso de estar deprimido. Outro mito associado à depressão é a de que tem de estar, obrigatoriamente, associada a um acontecimento negativo das nossas vidas como, por exemplo, uma rotura de um relacionamento, a perda de um familiar ou do emprego, a outras doenças médicas ou a problemas no trabalho ou na família. De facto, a expressão não tenho nada na minha vida para andar triste é frequente e leva muitas pessoas doentes a culpabilizarem-se pelo seu estado. Nada de mais errado. Basta atender ao facto de que, a maior parte de nós, não fica deprimido sempre que algo de muito negativo nos acontece.

Os sintomas que caracterizam uma depressão têm de estar presentes durante, pelo menos, duas semanas e são habitualmente: humor deprimido (sente-se triste, vazio, sem esperança no futuro, mais choroso), desinteresse ou falta de prazer nas atividades de que anteriormente gostava, descuido pessoal (dificuldade em tomar banho, menos gosto em arranjar-se), maior isolamento (rejeita convites, só quer estar em casa, no seu canto), perda ou aumento do peso, insónia ou maior necessidade de dormir (querer estar todo o dia na cama), sentir-se inquieto (mais ansioso) ou lentificado, ter menos energia ou estar cansado, sentir-se culpado pelo que acontece ou achar que não presta para nada, ter dificuldades em concentrar-se, em pensar ou decidir, pensar frequentemente na morte ou mesmo ter ideias suicidas (nesse caso, deverá sempre procurar ajuda de um familiar/amigo em quem confie e/ou dirigir-se à Urgência). Evidentemente, estes sintomas devem provocar mal-estar e refletir-se na capacidade para estar disponível para a família, interagir com os amigos e conhecidos, e capacidade para trabalhar.

Para concluir, a depressão é um problema de saúde importante e muito frequente. Tem um impacto negativo na vida da pessoa que se traduz em grande sofrimento pessoal e na diminuição da capacidade para funcionar na família, na sociedade e no trabalho. Existe uma multiplicidade de tratamentos, associando-se, regularmente, os fármacos às intervenções psicoterapêuticas. Assim, caso apresente sintomas de depressão não tome a atitude expectante de isto há-de passar e procure ajuda junto do seu médico de família que, certamente, o poderá tranquilizar ou encaminhar da melhor forma.

Ciro Oliveira
Médico psiquiatra

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