13 MAR 2017 | Saúde Mental e Ocupacional | Joana Pereira

 


A Propósito da Resiliência

A resiliência, hoje um conceito bastante estudado e difundido, está longe das primeiras definições que a associavam a termos olímpicos como invulnerabilidade e resistência absoluta ao stress, como se fosse possível e desejável sermos atletas de alta competição, intocáveis e sem limites para suportar o sofrimento. Hoje, mais elucidados, sabemos que a resiliência consiste na arte de aprender a viver, mesmo nos casos onde o desenvolvimento vital se faz no fio da navalha.

Poderíamos ser tentados a acreditar que quem teve uma infância estável e afectuosa tem pela frente um futuro risonho, mas a verdade é que “começar bem a vida” não garante um final feliz. Se imaginarmos uma criança desejada e amada, na qual os pais depositam todas as suas esperanças, rodeada por uma família unida que se basta a si própria, essa criança pode efectivamente acabar enredada numa espécie de prisão afectiva, onde os movimentos de individuação são desencorajados e sentidos como uma traição ao “clã”. Ficará, portanto, refém de uma dependência emocional que não a deixa amadurecer, impedida de expressar a sua individualidade, de criar os próprios caminhos e projectos, de pensar autonomamente e de enfrentar as futuras dificuldades de forma auto-determinada.

Por ouro lado, se uma infância desgraçada é “começar mal a vida”, não existe um determinismo absoluto que dite um futuro infeliz. Voltemos a imaginar uma criança que passou por uma série de adversidades e eventos traumáticos mas que, com o passar do tempo, foi desfrutando de relações reparadoras, de pessoas que lhe permitiram atribuir um significado ao trauma e assim elaborá-lo e transformá-lo. Essa criança, apesar dos seus infortúnios, reuniu recursos emocionais e competências para poder pensar-se e pensar o seu projecto de vida de forma positiva, maleável e esperançosa.

Posto isto, podemos dizer que a resiliência é a capacidade de dar sentido à dor e de a transformar no seio de relações afectuosas e promotoras de autonomia. Se não for possível a atribuição de sentido ao trauma, então não há resiliência, há apenas confusão e a tendência compulsiva para repetir as armadilhas do passado, como se puséssemos constantemente o dedo na ferida aberta e ainda nos surpreendêssemos e nos amargurássemos pelo facto de ela não sarar.

É ainda de realçar a importância fundamental do meio envolvente e das instituições sociais no processo de resiliência. Os laços que estabelecemos com as instituições escolares, com as associações cultuais e recreativas (filarmónicas, escuteiros, associações desportivas, oficinas de artes), com os serviços de saúde locais, com a junta de freguesia, com os vizinhos e com o bairro de forma geral, são factores protectores fundamentais e que permitem a criação de outros “tutores de resiliência”, referências estruturantes a quem podemos recorrer para reforçar ou encabeçar o apoio em situações de crise. Portanto, concluímos dizendo que a diversidade de relações, de modelos e de estilos afectivos contribui determinantemente para a robustez da resiliência, alavancando o desenvolvimento da flexibilidade mental, do respeito pelas diferenças, necessidades e limites pessoais, a edificação de uma rede estruturante de recursos internos e externos, ao mesmo tempo que autoriza a expressão de uma maior diversidade de facetas da nossa personalidade.

 

Joana Pereira
Psicóloga Clínica do MESMO (Mafra- Espaço de Saúde Mental e Ocupacional)

 

Referência bibliográfica: Cyrulnik, B. (1999). Uma Infelicidade Maravilhosa. Colecção: As Mãos e os Frutos. Edições Ambar

 

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