JOSÉ EDUARDO FRANCO
UMA MEDALHA E AS PONTINHAS DA INVEJA

O que me liga a José Eduardo Franco é uma teia maravilhosa do aluno perante o Mestre, de leitor perante o Autor, de aprendiz perante o Sábio. Do meu pequeno degrau olho para cima e lá está quase sempre o José Eduardo numa das prateleiras. A aprender ou a ensinar. Se lhe telefono – coisa que tento fazer muito pouco porque sei o quão precioso é o seu tempo e a forma como lhe aplica uma gestão valiosa – ele atende-me invariavelmente em surdina, com a sua “voz de biblioteca”. Mas atende sempre. Porque é dos raros sábios que entende que deve partilhar-se. Tenho a certeza de que ele vai dizer que exagerei, que os encómios não lhe são devidos, que eu digo dele coisas de exagero. Mas não. Há que desmenti-lo nesse caso. Posso acrescentar que o meu conhecimento inclui tê-lo entrevistado, mais do que uma vez, para órgãos de comunicação variados – TV, rádio, jornal – , o ter sido seu aluno – ainda hoje olho com incredulidade para a nota – , o de ter trabalhado sob a sua coordenação em mega projetos de investigação, eu uma pulga, ele o Gigante, o ter tido a honra de dar aulas no mesmo currículo partilhado com ele. E sobretudo o ter tido provas de uma amizade que respeito muito e que me encanta (hoje, estamos ligados outra vez em mais projetos e o que tenho de aprender sei que ele mo apontará).

O mais natural é que depois de tudo isto, aquele que aqui me lê, esteja a perguntar: quem é José Eduardo Franco? (Nem todos passam pelas bibliotecas, ou leem jornais de fio a pavio, nem todos saberão). Começo por dizer que há dias, José Eduardo Franco recebeu a Medalha de Mérito Cultural, atribuída pelo Estado Português. É o mais jovem cidadão a receber este galardão. Parece uma contradição: o País nem sequer tem Ministério da Cultura; o País investiu numa elite sem precedentes e traiu-a, descartando-a, empurrando-a para a emigração e para a promoção da riqueza alheia; o País maltrata os seus maiores cérebros, os seus ilustres, os seus mais dignos. Mas se na Academia correram bem ou mal disfarçadas pontinhas de inveja, esta medalha é mesmo o manifestar da grande inveja de um Governo incapaz de ser como os seus cidadãos. José Eduardo Franco é o oposto dos últimos anos da política: trabalha eficazmente na adversidade; em vez de alienar património, promove-o, restaura-o, procura-o, edita-o, partilha-o; é a própria cultura portuguesa enquanto seu militante; é um empreendedor nato, gestor exímio, respeitado pelas equipas que lidera; é um criador de riqueza e de trabalho para os outros; um gestor, que do muito pouco faz o grande e o imenso. Se fosse Governo podíamos estar descansados. Mas é “só” um investigador, “só” um professor – e em Governos como o nosso não há a capacidade de perceber riquezas tão vastas como essas. Para todas as gerações, este nosso José Eduardo é exemplo. Aos mais velhos porque ele acredita no País e lhes dá louvor; aos da sua idade porque todos devem segui-lo; aos mais novos por perceberem que há um Portugal que resiste e de enorme qualidade para onde um dia poderão regressar, se entretanto tirarmos o entulho dos caminhos. No passado dia 18 de setembro, no Claustro do Museu de São Roque em Lisboa, decorreu a cerimónia de atribuição da Medalha de Mérito Cultural do Estado Português ao investigador José Eduardo Franco, em reconhecimento do inestimável trabalho de uma vida dedicada às grandes causas da Cultura e à investigação e divulgação da História, em Portugal e no estrangeiro.

Notaram-se as pontinhas de inveja desde o primeiro momento em qua a notícia foi veiculada…

José Eduardo Franco nasceu a 17 de fevereiro de 1969 na Ribeira Grande, Concelho de Machico, Ilha da Madeira, onde conviveu desde muito cedo com a dureza das condições de vida do interior rural madeirense da época.

Formou-se em Teologia e Filosofia na Universidade Católica Portuguesa e fez mestrados em Ciências da Educação e em História Moderna na Universidade de Lisboa. Doutorou-se em História e Civilizações na École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS) de Paris, e em Cultura na Universidade de Aveiro. Fez a sua Agregação na Universidade de Lisboa em História da Cultura. Este percurso de formação interdisciplinar tem-lhe permitido interessar-se pela investigação e estudo de temas multímodos da Cultura Portuguesa e europeia na sua relação com o processo moderno de globalização.

É autor, coordenador e cocoordenador de vários projetos de investigação nos domínios das Ciências Sociais e Humanas, entre os quais podem ser destacados o Dicionário Histórico das Ordens, a Obra Completa do Padre Manuel Antunes (14 volumes) e o projeto de levantamento da documentação portuguesa patente no Arquivo Secreto do Vaticano (3 volumes). Concluiu recentemente o projeto da edição da Obra Completa do Padre António Vieira (30 volumes), em colaboração com Pedro Calafate, trabalho que constitui o maior feito da história editorial portuguesa, pela publicação, em tempo recorde de dois anos, de uma obra que vinha sendo tentada há cerca de século e meio.

É sua meta democratizar a Cultura Portuguesa, tornando-a acessível ao maior número de pessoas, numa urgência de mostrar aos portugueses a riqueza e o valor da sua herança cultural, com vista a consolidar e afirmar a sua identidade.

É Portugal, como o entendemos.

Alexandre Honrado

Historiador

Publicado em 23 de Setembro 2015

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