Há reações estranhas que não devemos deixar passar em claro. As reações dos ignorantes, por exemplo. Não daqueles que ignoram por alguma razão plausível, mas dos que, ignorando, desejam ardentemente fazer dos outros ignorantes para alardear pontos de vista ou levar ao topo do mastro uma cueca rota que pretendem fazer passar por bandeira. Esses ignorantes, dão-nos muitos exemplos da sua cruzada inquieta: negam a administração assassina do Estado Novo, dizem que Salazar era um bom estadista – o mesmo ditador que rebentou os cofres pouco cheios construindo um lugar de miséria e pondo-o em guerra  durante mais de uma década, aprisionando e matando opositores e promovendo a ignorância de 97 por cento dos habitantes de um País andrajoso e triste; dizem que fomos responsáveis pela crise, que vivemos acima das nossas possibilidades enquanto nos levam o que podem para os seus mercados, bancos, amigos e offshores mais ou menos misteriosos; dizem que os campos de concentração nunca existiram, do Tarrafal a Auschwitz, passando por Guantanamo ou por alguns lugares de repressão e morte que a História ainda trouxe à vista (há uma campanha dessas, a crescer, nas redes sociais que passa fotos antigas pelo novo Photoshop e que mente de uma forma moderna e organizada); dizem que o homem nunca foi à lua; defendem a economia ultraliberal contra o social, por serem instrumentos de mão de interesses muito duros….Os exemplos são, desesperadamente, infinitos.

Esses ignorantes gritam contra tudo com mãos cheias de nada, desdenham das obras nas ruas das suas cidades, como do vizinho que estudou mais do que ele, do carro que nunca conseguirão comprar, ao político que passou de repente a ter uma biografia do que nunca viveu… São os mesmos que escrevem, com ajuda, livros que parecem populares, que se sentam a jogar a bisca entre velhos do Restelo copiando-lhes modos e palavras, que anunciam a desgraça coletiva, mandam os filhos para a manifestação racista, filhos que perdem nas frentes do DAESH ou, mais junto à porta,  junto à sua  imbecilidade festejada.  Já os vimos na TV, já os apanhámos na rua, já os lemos no facebook, já os tivemos como primeiro-ministro ou ministro das Finanças…

Andam por aí, porque a democracia lhes consagra a liberdade, verdade seja dita e louvada.

Há reações estranhas. Encontramo-las todos os dias nas redes sociais, nas notícias (leram a daqueles criminosos que protagonizaram uma violação coletiva e saíram em liberdade?), nos comentadores com visões apocalípticas que, ao invés de interpretarem o mundo em que vivem, se esforçam por aniquilá-lo ou pelo menos distorcê-lo a troco de uma avença bem suada… São os que anunciam as bancas-rotas e os fins da História, sem se esquecerem de passar pelo balcão do pagamento e da recompensa…

Nunca se deve perguntar a um historiador como será o futuro, porque ele só sabe do passado. E se o passado teve luzes, justiça social, democracia e melhoria das condições de vida de muitos milhões de seres humanos, também deixou o germe dos imbecis que se cruzam connosco no presente, fazendo muros ao manhã que mais desejamos.

Na Ásia meridional e em África a maioria da população é analfabeta, vive muito abaixo dos índices da qualidade de vida que reconhecemos noutros pontos do Globo…

Na Europa morrem todos os dias refugiados que vêm de regiões ignorantes e atentatórias da dignidade humana. A Europa é a última etapa para muitos que aqui vêm morrer – ou tentar viver.

Nos países pobres da Europa, o seu esforço de recuperação económica vai direto para os bancos dos países ricos da mesma Europa, de que são parceiros…

Os homens podem pensar. Ao contrário das objetivas das câmaras e dos computadores, pensam, sentem e agem. São ainda, em potência, redutos de afetividade.

Há reações estranhas que não devemos passar em claro. A desumanização é a principal. A da analfabetização emocional, uma das mais graves. E quase todas esses reações retiram, ou procuram tirar, ao ser humano, a sua condição Humana.

Muitos de nós desejávamos apenas estabilidade, paz e ordem, requisitando-as ao sistema e àqueles que eram tolerados – e no caso de quem vota, aprovados –, àqueles que seguram “as rédeas” do poder. É a expectativa pobre, dos pobres.

Os eleitores tornaram-se clientes. Os pensamentos tornaram-se dependentes. E há reações estranhas, todos os dias, que mostram bem o perigo que corremos se nos metermos ao mar numa viagem clandestina pela história da nossa vida.

 

Alexandre Honrado

Historiador

Publicado em 1 de Junho de 2016

 

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