EDITORIAL A dupla vitória do PSD de Hélder Sousa Silva

EDITORIAL

 

A dupla vitória do PSD de Hélder Sousa Silva

 

O PSD de Hélder Silva registou ontem uma dupla vitória eleitoral no concelho de Mafra. Por um lado, alargou a sua maioria absoluta, sendo esse um feito assinalável num concelho que vai já a caminho dos 40 anos de poder laranja. A segunda vitória é interna, Hélder Silva não só pulverizou a oposição à sua esquerda e à sua direita, como esboroou a embora fraca oposição interna representada pela facção Ministro dos Santos.

Este feito de monta resulta da convergência de duas realidades. Por um lado, a experiência politica do recandidato presidente, experiência refinada nas suas funções de vereador de Ministro dos Santos e enquanto deputado da nação, juntando-se a isto um alinhamento perfeito com a direcção e a linha politica de Passos Coelho, com direito aos correspondentes benefícios em termos de financiamento e de aconselhamento político de alto nível. Por outro lado, pôde contar mais uma vez com o demérito, o amadorismo, o voluntarismo, a apatia quadrienal, a falta de experiência política e a divisão da oposição.

À sua direita foi a grande hecatombe. O CDS-PP desapareceu do panorama político concelhio, definhou, como definham as árvores que se situam perto dos eucaliptos políticos, sendo que em Mafra, ao longo de decénios, o PSD se especializou em secar o terreno politico à sua volta. Do discurso, talvez o mais inovador desta campanha, não resta agora nada, nem um deputado. O CDS-PP vai ter de investir muito trabalho para conseguir, um dia, renascer das cinzas.

A CDU foi a única força política que em Mafra sofreu duramente os efeitos da conjuntura nacional. Reflectiu-se em Mafra aquilo que aconteceu àquela força política em todo o país. A aproximação ao PS a nível nacional e a entrada do BE e do PAN no panorama local, foram-lhe fatais. A CDU perde assim o seu vereador e vê reduzidos a 2 os seus deputados municipais e a 6 os seus deputados com assento em assembleias de freguesia. Tarefa muito difícil a da CDU na próxima legislatura local

O Bloco de Esquerda pouco mais conseguiu do que marcar passo. Manteve o seu deputado municipal e elegeu pela primeira vez, 2 deputados em assembleias de freguesia. Uma campanha apagada, poucas ideias novas e uma baixíssima implantação no concelho levaram a estes resultados. O BE limitou-se aqui a tentar capitalizar a nível local, os votos das últimas legislativas. É pouco, muito pouco.

O PAN, que tinha prometido ser uma surpresa, faz afinal os mínimos, elegendo 1 deputado municipal. Com um discurso fundamentalmente centrado nos nossos amigos de quatro patas, mostrou pouco trabalho no concelho e pouca ou nenhuma inovação ideológica no cavalgar de emoções zoófilas muito ao gosto de alguns portugueses.

Resta pois, ao nível da oposição, o maior partido, o Partido Socialista. O PS vê a sua representação reduzida de 3 para 2 vereadores, enquanto o PSD sobe de 5 para 7. Para além disso, assegurou 8 deputados municipais, perdendo 1, e 37 eleitos para assembleias de freguesia, perdendo 2. Mantém a Junta da U. F. de Igreja Nova e Cheleiros, embora sem maioria absoluta.

O facto de o PS nunca ter sido poder a nível local, o facto de não dispor, entre os seus militantes locais, de especialistas sectoriais e de quadros políticos experimentados, o facto de trabalhar a partir de um muito reduzido número de militantes, apagando-se muitos deles entre legislaturas, impedindo assim um trabalho continuado, a dificuldade de polarizar esforços em torno de uma figura local com trabalho consolidado no concelho, e finalmente, o historial de dissidências e querelas internas que tem afectado a imagem deste partido em Mafra, com lutas fratricidas, ora com base em questões de carácter pessoal, ora em posições politicas firmadas entre “Costistas” e “Seguristas”, tudo isto, augura a continuação de tempos difíceis para aquele partido, sem grande expectativa de que possa levantar a cabeça no médio prazo, ou que possa vir a tornar-se naquilo que hoje não é, uma real e credível alternativa de poder no concelho.

A actual liderança local do PS deverá agora ver-se confrontada com a sua oposição interna, após eleições isso é inevitável. Se for vencida, o PS Mafra aproximar-se-à do PSD e ensaiará uma coisa do tipo bloco central, isto, claro está, se o PSD local estiver pelos ajustes e avaliar como positiva para si, a dispensa de uma ou duas cadeiras estofadas. Caso vença a linha que está actualmente à frente do PS Mafra, deverá continuar a travessia do deserto a que este partido há muito tem estado sujeito, restando-lhe pouco mais do que aguardar pelo último mandato de Hélder Silva, trabalhando até lá como se as eleições fossem já amanhã. A assim não ser, o PSD pode preparar-se para mais 40 anos de mandatos com maioria absoluta.

Em Mafra, o trabalho político de Hélder Silva à frente do seu partido tem sido de excelência, permitindo-lhe descolar de Ministro dos Santos, um ex líder que cada vez menos militantes daquele partido recordarão com saudade. Deu um ar mais moderno ao concelho, pelo menos na primeira linha do horizonte. Apostou no surf como modelo de desenvolvimento turístico, uma aposta ganha, embora com alguns riscos. Deu algum impulso cultural ao concelho, embora com base sobretudo em temas que pouco devem à modernidade. É um líder local com uma boa imagem, muito activo e trabalhador, com excelentes relações no seu partido, relações de que o concelho ainda beneficiou enquanto Passos Coelho esteve em S. Bento. Acresce que actualmente o PSD é o único partido do concelho com quadros políticos experimentados, beneficiando do concurso de quadros técnicos com bons conhecimentos nas suas áreas, facto que se reflecte habitualmente na programação e na qualidade das propostas apresentadas.

Nos próximos 4 anos, Mafra merece ver todo o concelho abastecido de água canalizada e servido por uma rede pública de saneamento. Merece uma política fiscal mais amiga do munícipe. Merece uma rede de transportes mais eficaz. Merece beneficiar de um investimento intensivo no interior do concelho. Merece espaços públicos mais cuidados. Merece uma maior descentralização para as freguesias. Merece mais creches municipais e merece lares municipais para os munícipes seniores. Merece uma câmara mais transparente. Merece menos contratos por ajuste directo. Merece serviços municipais que respondam cabal e atempadamente às questões que lhes são colocadas pelos munícipes-contribuintes, os verdadeiros accionistas da “empresa” Mafra. Merece finalmente, que os órgãos de comunicação social do concelho sejam todos tratados por igual, em condições de concorrência, sem pressões, sem proscritos, sem subsídios, sem comodatos e sendo todos obrigados a cumprir a lei que vigora no país.

O concelho, como o país, só tem a beneficiar com a opinião divergente, com a discussão aprofundada de todos os temas em plena liberdade, com a igualdade de oportunidades, para que todos possam apresentar os seus pontos de vista, mais a mais, tendo em consideração que no final, a decisão estará sempre assegurada por uma sólida maioria.

A liberdade, antes de ser um paradigma político, é um exercício de inteligência.

 

 

Paulo Quintela
Director do Jornal de Mafra