Jorge C Ferreira

 

A Catalunha II

 

A Catalunha, para mim, é passear pela Barcelona de Gaudi, percorrer o bairro gótico, dormir na “Plaza del Angel”, ir ver Picasso e Miró nos seus museus, subir e descer as ramblas, tomar um café no “Café de L’Òpera”, ir ao “Gran Teatro do Liceo”, comprar uma flor em “La Boqueria”, trepar até Montjuich, ir ver o mar na “Barceloneta”, andar naquele tremendo teleférico e acabar a ver jogar o Barça em “Camp Nou”.

É também ir ver o outro colorido da festa a Stiges, visitar o museu de Dali em Figueres, deixar-me enlouquecer na Costa Brava, tomar banho em Rosas, andar pelos canais de Apúlia Brava e sentir a tramontana em Cadaqués enquanto Lorca recita um poema e Dali pinta Gala toda nua.

Catalunha é ainda comer uma botifarra assada na brasa, é participar numa paella do povo num parque de todos e dançar uma rumba catalã. É sentir o orgulho de uma língua viva, falada, escrita, ensinada. É uma forma de estar. São as torres humanas (Castell). Uma bandeira. Uma nação que apetece calcorrear.

Catalunha é a voz dos seus enormes cantores e músicos, dos seus grandes escritores. O traço magistral dos seus pintores. Um caudal imenso de cultura que ali nasce e desagua em muitos de nós como uma bênção.

Catalunha é o meu jantar dos Domingos com os meus amigos catalães. Jantar sempre muito falado. Vamos mudando de sítio e eu continuo a ser um ouvidor atento. São duas amigas e um amigo. Nem todos têm a mesma opinião, mas sentam-se à mesma mesa e falam. Falamos. Vou sabendo das suas opiniões, de um e de outro lado. Uma coisa têm em comum, não aceitam o “anticatalanismo” que há muito sentem. Não é de agora, é coisa antiga mas que agora tomou proporções terríveis. Por vezes faz-me lembrar aqueles casamentos em que o casal já não se pode ver e quando um decide romper, o outro fica enfurecido. Não se trata de amor é, apenas, sentimento de posse. Domingo lá iremos jantar de novo. Esperamos sempre mais um amigo. Vamos conversar. Eles bebem cava, Catalã claro. Nisso não os acompanho.

A política:

A política tem seguido os seus termos, com avanços e recuos e alguns truques nossos conhecidos. No entanto, nos últimos dias e, mais propriamente, nas últimas horas, os sinais são preocupantes.

Dois organizadores das maiores manifestações pacíficas existentes na Catalunha e na Europa, (Jordi Sánchez e Jordi Cuixart), foram presentes a juiz e foi-lhes decretada prisão preventiva. O crime de que são acusados é de sedição. Logo se levantaram vozes que consideram que os “Jordis” são presos políticos e não políticos presos como outros  querem fazer querer.  A tentativa de juridicização do político não ajuda nada à resolução dos problemas.

As cartas e os pedidos de esclarecimentos continuaram a viajar entre Madrid-Barcelona-Madrid. Até que hoje, quinta-feira dia 19 de Outubro de 2017, subiu-se outro patamar. Puigdemont escreveu a Rajoy dizendo que a independência estava suspensa e que, se o presidente do governo aplicasse o artigo 155 (suspensão da autonomia), ele faria votar no parlamento catalão a declaração unilateral de independência. Tudo isto é muito perigoso. São braços de ferro que  podem partir. Sábado, dia 21, vai reunir o conselho de Ministro para decidir sobre os modos de aplicação do malfadado 155. Tudo está em aberto. As empresas, num movimento que parece concertado, continuam a retirar as suas sedes da Catalunha. Falta gente de boa vontade. Faltam vozes sensatas e esclarecidas. Como se chegou aqui? Como se passou, em poucos anos, de vinte e tal por cento a favor da independência para 48%? Todos os erros cometidos com o jogo político e judicial do estatuto da Catalunha de 2006 podem ter sido um detonador importante.

Vamos continuar atentos.

«Olha que eu não vejo nada de bom por aí. Tu e as tuas manias!»

Voz da Isaurinda, desde que  tem um sistema de vídeo chamada,  é isto. Sempre a ligar.

«Aqui está tudo calmo. Estamos longe. Está descansada.»

Respondo.

«Do longe se faz perto, nunca te disseram?»

De novo Isaurinda e vai, acena com o pano que tem na mão e desliga a chamada.

Jorge C Ferreira Out/2017(142)(Reino de Valência)