Jorge C Ferreira

 

Caminhada a duas vozes

A vida a andar ao contrário. Uma volta difícil de dar. As curvas e as contracurvas. A cansada coragem. Apesar de tudo, nunca desistir. Por vezes perdemos tempo a tentar entender o inexplicável. Não vale a pena, é um tempo perdido. Saber das abertas e dos ocasos. Ver para lá das nuvens. Seguir o caminho. Ter atenção aos sinais. Acreditar. Continuar a beber a vida.

Outra voz:

«Por onde ando, onde estou? Aqui ando perdido. A perdição a chamar-me. Não vejo caminhos. Não vejo. Uma cegueira que se apodera de mim. Um véu. Opacos tecidos. A falta de luz. A falta de mim.»

Aprender com os caminhos já percorridos. Com as teimosias da vida. Os altos e os baixos.  Os interregnos. Os sonos profundos e os inesperados despertares. Recomeçar. Não ter medo do princípio das coisas. Recusar o que nos oferecem como inevitável. Nunca dar nada por adquirido. Conhecer os rituais. Saber das cerimónias. Continuar.

Outra voz:

«Procuro-me. Uma busca que quase me agonia. Sinto os sinais do corpo. Tento tornear as dores. Um dente que se parte. Sou quase um animal em fúria. Tento acalmar-me. Diz-me tu, minha asa protectora, o que tenho que fazer para desembrulhar a vida.»

Tudo aparece como que nascido do nada. Uma força difícil de contrariar. Uma vontade própria. Uma danada auto suficiência. Sobram algumas aparas próprias de toda a criação. Não servem para nada, mas ninguém se desfaz delas. Ouvem-se alguns queixumes. Gemidos vindos de muito longe. Muitas camas com gente que já não sabe de si.

Outra voz:

«Doem-me as dores. Não acreditam? É verdade! Réplicas tremendas. Quase como uma crise sísmica. Tenho medo que a água que vive em mim se revolte. Estou num estado em que me custa saber de tudo. Espero um abraço. Quero a cura. Quero saber o sabor dos afectos. Sei que querer-me é muito importante. Vou partir nessa demanda.»

São invisíveis os corredores do sofrimento. Alguém lhes subtrai a luz. Não conseguimos descortinar a cor das coisas. Uma azáfama tremenda passa por nós. Chiam rodas por olear. Panos crus. Cruzes sem crucificados. Pagelas de santos por canonizar. Chove no canto de uma vida. Dizem que é uma água santificada. Só acredita quem quer.

Outra voz:

«Já cruzei algumas linhas desconhecidas e ainda não cheguei a lado algum. Continuo a sentir os sinais do desconforto. Não quero desistir. Prometi, está prometido! Assim tentarei cruzar o cabo de todos os sacrifícios. Disse-me um eremita que, depois dele, é tudo uma doce suavidade. Não vou desistir. Atingirei tal desidrato?»

Que mundo nos havia de caber. Pinhais a arder. Gente ardida. Estradas da morte. Gritos, chamas, tremendos ardores. Fogem animais, ouvem-se uivos de agonia. Não há água para tanto fogo. As nuvens fugiram, ou calaram-se. Medo? Teimosia? Ninguém sabe. Tudo se vai alterando, conforme o caminho que vamos fazendo.

Outra voz:

«Cruzo portas abertas de par em par. Talvez um anúncio de novas vidas Estou a ouvir sons que soam a sagrado. Todos os meus sentidos estão agora num estado de quase encanto. Não sei onde estou. Não vejo ninguém, embora sinta que há quem me veja. Uma estranha sensação. Não sinto o corpo. Em que dimensão estou?»

Nunca chegamos ao fim de nada. Há sempre mais alguma coisa que nos acontece. Chamam-lhe surpresa. Há surpresas que dispensamos. Chamam viver a este desassossego. Continuo ansioso pela chegada das ternuras.

«Olha lá, tu põe-te fino. Parece que queres fazer medo às pessoas!»

Diz Isaurinda.

«Querida, isto é uma caminhada a duas vozes. Uma parte do nosso caminhar.»

Respondo.

«Sim, sim. E isso das vozes também me faz impressão.»

De novo Isaurinda e vai, o pano na mão.

Jorge C Ferreira Fev/2018(158)

 



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