Alice Vieira

 

Coração de manteiga
Alice Vieira

 

Não sei se há caras normais, não sei sequer o que é uma cara normal, mas ele tinha uma cara normal. Lembro-me de ter pensado isso quando olhei para ele depois de tudo –muito calmo, como se nada se tivesse passado.

A sala de espera de um  consultório  é aquele estranho lugar onde geralmente ficamos em dia com as desgraças, amores e desamores de gente certamente muito importante porque as suas fotografias enchem páginas e páginas das revistas, mas de quem nunca ouvimos falar.

Eu então, que não vejo telenovelas e, da televisão, só vejo a RTP-Memória e o Fox Crime, não conheço 90 por cento das pessoas que enchem aquelas páginas.

Às vezes, no final, reparo que aquelas revistas já têm mais de um ou dois anos, mas isso que importa, o tom de irrealidade é o mesmo, e o que é preciso é que a gente fique mais calma para enfrentar o que nos espera quando a empregada abrir a porta e chamar pelo nosso nome.

O rapaz tinha sido chamado antes de mim e confesso que nem tinha reparado nele. Mas ali estava ele de novo, agora com um ar muito preocupado ,a perguntar se alguém tinha visto a carteira, só podia estar ali, ele lembrava-se até de a ter aberto , por isso tinha de estar ali.

Mas ninguém tinha visto a carteira.

Ao balcão, um homem apressava-se a pagar a conta, abanou a cabeça, também não a tinha visto, e saiu.

Na sala, levantámo-nos todos, revirámos almofadas dos sofás, olhámos por todos os cantos, e nem rasto.

O rapaz garantia que só podia estar ali, o que nos tornava a todos suspeitos.

”Devo tê-la deixado cair aqui”, repetia ele, aflito, a carteira tinha, segundo  afirmava, os cartões todos e muito dinheiro, “e agora?”

A empregada garantia que a sala não tinha buracos, se ele a deixara ali, ali tinha de estar,.

Mas o pior é que não estava, e o rapaz olhava para cada um de nós , e nós olhávamos uns para os outros como se fôssemos cúmplices de coisa nenhuma.

–Tenho de ligar para casa, a pedir que me tragam dinheiro — murmurou , tirando  o telemóvel do bolso das calças.

É então que a porta da rua se abre e regressa o outro homem, o que acabara de pagar a conta ao balcão.

Tem uma carteira na mão e, com maus modos, estende-lha:

–Tome lá.

O rapaz olha e nem pergunta nada, não percebe o que aconteceu.

O outro encolhe os ombros e diz:

–Esta semana já me roubaram três vezes. Por isso há bocado, quando vi a sua carteira caída no chão, decidi que me ia vingar. Mas quando cheguei à rua vi que você tinha muito dinheiro e uma data de cartões e ainda podia arranjar uma data de chatices, e olhe, arrependi-me.”

O rapaz pegou na carteira e correu escada abaixo.

O outro encolheu outra vez os ombros, olhou para nós todos como se tivesse feito uma coisa absolutamente normal, e murmurou:

–O meu mal é ter um coração de manteiga

Abriu a porta e saiu.

E a empregada até trocou o nome do doente seguinte.

 

 



Pode ler (aqui) as crónicas quinzenais de Alice Vieira.