Alexandre Honrado

 


Para acabar de vez com a cultura

Já escrevi muitas vezes sobre as rotações verificadas na cultura contemporânea, as mais das vezes desagarradas de outros tempos culturais em que a ideia de construção cultural era muito distinta da que vamos tendo.

Nota-se, sobretudo na cultura erudita, uma composição que para uns é bizarra e para outros é triunfante, pela teimosia da luta entre valores que se foram chegando à frente.

Há muita polémica, sobretudo entre os conservadores, que odeiam ser desagregados das suas plataformas de falência.  Estão contra Bod Dylan ter sido Prémio Nobel da Literatura, contra a eficácia do Acordo Ortográfico que milhões de pessoas usam (algumas até dominam) sem que disso venha mal ao mundo, contra a pinturas aparentemente louvando o disforme e o concreto de um Lucien Freud, de uma Paula Rego, de um Cândido Portinari,  contra as ideias avançadas do Papa Francisco, contra os telemóveis como parceiro de aprendizagem, contra os “tablets” em sala de aula, contra as novas tecnologias ou a nova dinâmica do ser humano que aprendeu a reciclar, a clonar, a fazer-se aos astros… Estão até contra uma juventude que parte à conquista de novos espaços, via Erasmus ou outro inspirador, acreditando ainda haver futuro.

Para alguns, seria bom dar o Prémio Nobel sempre ao mesmo, escrever como Camões que estava longe de escrever como Sá de Miranda ou Fernando Pessoa ou Herberto Helder, continuar com a Santa Inquisição e D. João III, com a pequena ardósia entre os dedos percorridos de frieiras, com a política bacoca do Estado Novo e os seus olhos tortos apontados ao umbigo da estagnação e à repressão da aprendizagem – e tudo o mais que os conservadores brandem como valores e bandeiras, que vistos de perto são coisas mesquinhas e trapos rotos e sujos a esvoaçar num pau incerto.

A Europa veio visitar-nos recentemente e achou que gastávamos pouco dinheiro em investigação, tínhamos professores velhos, poucos Doutorados, poucos mestres, poucos licenciados e pouca cultura, dessa que não é só dos séculos passados e da etnografia, mas muito do século a vingar, do hipertexto, de neurociência, da nanotecnologia, dos estados quânticos…

Talvez quem lê estas linhas não saiba mas os primeiros organismos semi-sintéticos já estão entre nós: cientistas americanos criaram novas formas de vida usando um código genético expandido. Ou que um novo órgão humano, o mesentério, foi encontrado. Cientistas descobriram que é ele que une o intestino com a parede do abdómen. Ou que, ainda, a atividade humana criou  “bolha” que cerca nosso planeta: as ondas de rádio emitidas criaram uma barreira recentemente descoberta.

Para acabar de vez com a cultura, seria preciso deixar os conservadores triunfarem. A ciência abrandaria e a imbecilidade triunfaria. (Por vezes, acho que é isso mesmo que se passa).

 

Alexandre Honrado
Historiador

 



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