11 MAI 2017|CRÓNICAS DE ESCÁRNIO & MALDIZER | VICENTE GIL


SALVÉ SENHORA DE FÁTIMA

 

Foi com um aperto no coração,
Medo, pavor, aflição,
Que recebi das Finanças
Algo que me tirou de todo as esperanças
De ter um mercedes antigo,
Mala grande, excelente artigo,
Um carro do melhor
Para ir ao LIDL às fraldas Lindor;
Cobraram-me uma pipa de “massa”
De renda, esta tem muita graça,
De um terreno de silvas e canaviais
Mas que, por azar dos Cabrais,
É urbano, dizem eles,
Enquanto me esticavam a peles
Com esse imposto maldito
Que me leva sossego e “guito”
Tem de IMI o nome
E quase me mata de fome.

Ai que se me rebentaram as águas!
Ai que tristeza, ai que mágoas!
Estou aqui que nem posso,
Escanzelado, pele e osso,
Comendo pão e azeitonas,
Porque tenho a carteira nas lonas
À conta de essas matrafonas
Da Câmara que querem fazer miminhos
Aos munícipes anjinhos
Em ano de eleições.
Vão roubar o Camões!

Apeguei-me à Virgem Maria
Fui a pé à Cova da Iria,
Rezei terços, acendi velas,
Comprei uma imagem daquelas
Que dá luz na escuridão
E fi-lo com tanta devoção
Tanto empenho, tanta fé,
Que a Virgem de Nazaré,
Atendeu os meus pedidos
Ouviu minhas preces e gemidos.

E, curiosos, perguntam vocês
Quais foram as graças, as mercês
Que a Virgem concedeu
A este pobre ex-ateu?
Estava eu no Santuário, prostrado,
Quando fui por Ela iluminado,
Com uma ideia de génio:
Fundar, com o meu primo Arménio,
Uma loja de artigos religiosos,
Alternativos, irreverentes, piedosos!

Nesta terra onde a inveja
Tem mais saída que cerveja,
Onde tudo se imita e copia,
Juro pela Virgem Maria
Que jamais ouvirão desta boca
Qual é a ideia louca
Que fará de mim rico.
Não abrirei, portanto, o bico
Nem direi que vou vender
Latinhas, está-se mesmo a ver,
Com suspiros da Lúcia, a vidente
No dia em que se meteu na aguardente.
Esta boca está cerrada
Sobre os terços não direi nada,
Os que em lugar do crucifixo belo
Terão uma foice e um martelo.
Dos oratórios, nem uma palavra,
Obra linda, de fina lavra:
Um coiso das Caldas em corte,
Cabendo lá dentro, desta sorte,
Três pastorinhos em pelota
E em cima de uma árvore torta
A Virgem em biquíni…
Tudo por causa do IMI…

Vai ser um corrupio de gente
pia, a Deus temente
E até o Papa Chico
Nos irá comprar um penico
Ou uma caixinha com embutidos
Cheia de piedosos gemidos
E penas do Espírito Santo.
Nunca ninguém se atreveu a tanto!

Salvé nobre padroeira!
Abençoai a roubalheira,
Convertei a infiel Rússia,
E fulminai essa súcia
De comunistas ateus,
Levai-os para o fogo eterno
Nas profundezas do Inferno.

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