06 Jul 2017 |CRÓNICAS DE ESCÁRNIO E MALDIZER | VICENTE GIL

A maravilha de se ser crente em Deus(es)
por Vicente Gil

 

Estava Deus entediado lá no Céu, quando se lembrou de criar o Universo. Criou-o grande, enorme, com uma extensão difícil de imaginar; Uma estimativa algo especulativa diz-nos que há mais estrelas no céu do que grãos de areia na Terra. A coisa é mesmo muito grande…
Pois bem… Deus criou isto tudo e depois criou o Homem e deu-lhe o Universo! Fantástico!

No tempo de Adão e Eva não havia a morte física nem sofrimento nem necessidade de trabalhar. Adão devia viver aborrecidíssimo com a pasmaceira que era o Paraíso e decidiu algo radical: Comer do fruto da árvore da sabedoria (o que era proibido)…
A coisa correu mal e Deus, decidiu punir Adão e a sua descendência para sempre com o ferrete do pecado original e a barbuda do Paraíso acabou.
Se calhar Deus reparou que tinha cometido um erro crasso ao criar um Homem que não morria. Um grande berbicacho. Vejamos:
Adão e Eva foram criados adultos e tiveram descendência. E depois?
Envelheceram? Se sim, os seus corpos envelheciam ou ficavam sempre jovens?
E os seus filhos? Nasciam já adultos? Claro que não. Então cresciam até que idade?
Se ninguém morria, o crescimento da Humanidade tornar-se-ia geométrico e em poucos séculos a quantidade de seres seria tal que o seu peso ultrapassaria o do próprio planeta.
Deus respirou de alívio quando Adão lhe deu um motivo para desatar este nó górdio em que se metera.
E pronto; Depois disto, Deus dormiu uma sesta de milénios até Noé. E mais uma vez fez um back-up à Humanidade, destruindo quase tudo e começando de novo. Nada mal para um ser omnipotente e omnisciente.
Mais uns milénios e Deus lembrou-se de pegar num velhote do Médio Oriente (Abraão) e fazê-lo seu protegido, em prejuízo de todos os outros povos. Mais um sarilho! Nunca mais houve sossego na “Terra Santa” e o povo eleito depressa se dividiu em seitas que se matavam entre si, tudo em nome de Deus; Judaísmo, Cristianismo, Islão mataram e matam porque se acham herdeiros da verdade ditada a Abraão e aos emissários que mais tarde Ele enviou.
Com Moisés e os profetas foram criadas regras divinas para tentar manter a Humanidade sob algum controlo. Proibiu-se a ingestão de marisco, de polvo e de carne de porco, proibiu-se a lampreia, a roupa de tecidos de natureza diferente e outras normas cuja utilidade é óbvia.

O Deus criador do imenso Universo sempre manteve uma conta-corrente com cada ser humano, onde contabiliza os seus pecados e boas obras. Como os pecados sempre foram muito mais do que as obras virtuosas, Deus ficava fulo e com vontade de arrasar este ser atrevido. Mas, em vez disso, arranjou uma maneira de aplacar os seus acessos de ira: Se os seres humanos abatessem animais e queimassem o seu sangue num altar, o fumo assim originado expiava os pecados cometidos. Está-se mesmo a ver que a coisa não correu lá muito bem; Isto virou negócio para os sacerdotes e Deus já tinha o Céu poluído com o fumo de tanto churrasco.
Assim, o Deus omnipotente e omnisciente, decidiu mudar essa regra dos holocaustos; Enviou o seu próprio filho (Cristo) para ser “imolado” numa cruz e acabar de vez com o problema.
Mais:
O holocausto do Filho de Deus tinha um efeito que não era anual mas para sempre. A remissão dos pecados ficou garantida para a eternidade com a morte de Cristo…
Asneira grossa!
O bicho homem depressa percebeu que tanto fazia ser bom como ruim que ia dar no mesmo, isto porque se Cristo redimiu os pecados presentes e futuros, ninguém mais malharia com os costados no Inferno. Lá teve Deus que criar uma “emenda” ao soneto e dizer que “tal e coisa, a redenção vale mas quem morrer sem se arrepender, lixa-se à grande e à francesa”.
Deus, perfeito e todo-poderoso, encarregou os seus representantes na Terra de espalhar os seus ensinamentos e de ditar novas regras. Funcionou lindamente! Temos hoje milhares de Igrejas, congregações e seitas a fazer este mister.
Deus ainda mandou Maria a Fátima, a Lourdes e a outros locais da Terra, a fim de servir de mensageira da vontade divina. Mas não correu lá muito bem; Os pastores a quem a Maria falou baralharam tudo e foi preciso virem bispos e Papas dizer o que é que Maria realmente queria dizer… E o assunto virou negócio chorudo outra vez!
Como cada um dos legítimos representantes de Deus diz algo diferente, tenho cá um dedinho que me diz que Deus, um dia destes, vem ele próprio à CNN ou à Al Jazeera esclarecer este imbróglio. Tomara que sim!
Ficará, assim, bem claro que todos os deuses são falsos menos Jeovah.
Só fico espantado é com o facto de Deus não ter intervindo mais cedo, como fez com Abraão e Moisés, falado através de uma nuvem ou uma moita de silvas a arder. Deus está à espera de quê para fazer um comunicado à Humanidade? Que péssimos assessores deve ter o Altíssimo.

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