13 ABR 2017 |CRÓNICAS DE ESCÁRNIO E MALDIZER | VICENTE GIL

Velhas ao Sol
por Vicente Gil

 

Onze da manhã de um dia de primavera, à porta da Ti Prudência do Constantino:
Alzira: Bom dia comadre Prudência…
Prudência: Bons olhos te vejam, “priga”! Há que tempos que não te via…
Alzira: Viste-me ontem, ó estampada, no funeral do Zé da “Estrudes”, já não te lembras?
Prudência: Ai esta minha cabeça…
Alzira: Eu ando aqui tolhidinha das cruzes… O tempo vai para chuva ou “néuba”…
Prudência: Nem me fales nisso! Tenho gasto um dinheirão em remédios e nada. Esqueço-me de tudo. Ontem quase peguei fogo à casa; Deixei um cachucho no forno a assar com batatinhas novas e se não fosse o Manel “Caramelo” a dizer que cheirava a esturro, a esta hora estava eu a morar debaixo da ponte.
Alzira: Desde que o meu marido está com a “prósca” tem sido um martírio. No outro dia…
Prudência: Cala-te! Não me digas que o teu “Joquim” fugiu com uma brasileira! Ai o malandro!
Alzira: “Prósca”, mulher! Aquela coisa ao pé da bexiga!
Prudência: Ah, pronto, pronto… Também estava a achar muita fartura… Ele já não dá duas para a caixa…
Alzira: Verdade! Aquele pobre diabo sempre que vai à casa de banho “mudar a água às azeitonas” fica com as chinelas ensopadas. Um martírio!
Passa a Laurinda, raparigota de 27 anos, toda maquilhada e bem vestida.
Prudência: Hum… Esta, desde que anda com metida com o polícia de Sintra, até parece que tem o rei na barriga. Peniqueira!
Alzira: É mesmo! Não fala a ninguém e ainda se queixa de ter de pagar “a décima” do andar que o polícia lhe ofereceu… Só a mim é que ninguém me oferece uma casa…
Prudência: Pois… Mas tu já estás mais para lá do que para cá… Por que carga de água alguém te iria montar um andar na Ericeira?
Alzira: Diz o roto ao nu…
Prudência: Bem… Adiante… Amanhã sabes onde é que eu vou?
Alzira: A uma consulta, está-se mesmo a ver…
Prudência: Nada disso…
Alzira: A Fátima a pé…
Prudência: Só se fosse de pé dentro da “fragunete” do meu Isidoro… A Fátima a pé? Eu vejo-me negra para ir à Junta levantar a reforma!
Alzira: Desembucha, mulher! Queres que me dê aqui uma coisa má com tanta ansiedade?
Prudência: Vou pôr internet. Pronto, já disse!
Alzira: Variou, está visto! Ó mulher, tu sabes lá lidar com essas geringonças…
Prudência: Não sei mas aprendo. Quero ter um “feicebuque” como a Cremilde, essa vaidosa que não fala noutra coisa… Consta que aquilo é uma mina de novidades e coscuvilhices… Não que eu seja “codrilheira”…
Alzira: Não… Nadinha!
Prudência: Uma pessoa precisa de saber o que essas línguas de trapo andam por aí a espalhar acerca da gente… Umas víboras é o que elas são!
Alzira: Depois mostras-me para eu ver como é. Quem sabe se eu também não vou meter uma coisa dessas… O meu neto “Jorze” tem mas sempre que eu me chego a ele para espreitar, ele apaga tudo. No outro dia apanhei-o a ver coisas religiosas, pelo menos a avaliar pelo que ouvi. Era uma senhora que devia estar a subir a correr o Bom Jesus de Braga; Estava ofegante e só dizia: Ai meu Deus, ai meu Deus, Jesuuuuuuuuus!
Alzira: Não abras a pestana, não…
Prudência: Porquê?
Alzira: Nada, nada… Nunca ouviste falar em filmes de poucas vergonhas?
Prudência: Já. E qual é o mal?
Alzira: Qual é o mal? Olha, devias ouvir o que o Sr Prior disse acerca dessas javardisses…
Prudência: Ouvi sim senhor o que ele disse. E eu acho é que ele não quer que vejam essas coisas durante a missa.  Deixa lá o rapaz aprender o que é a vida! Mas, pelo menos, anda atrás de mulheres, não é como o Tonico, o teu neto, que… Cala-te boca…
Alzira: O meu Tonico é um doce de rapaz, um menino lindo e delicado, uma flozinha de estufa que gosta de poesia, de música e de usar brinco… Não é como o brutamontes do Jorge que até pegou fogo ao meu gato. Se um dia o apanho a jeito, dou-lhe uma carga de porrada que é para ele aprender…
Prudência: Delicado, florzinha… Bem, deixa para lá… A cada um a sua cruz…
Alzira: É melhor, é… Antes que me subam os azeites à cabeça…
Prudência: Sempre vais sexta-feira à Ribeira d’Ilhas ao mexilhão?
Alzira: Já fui anteontem e apanhei uma sacada deles, bem grandes. Achas que sou burra? Aquilo na sexta-feira santa é um Deus nos acuda de gente, escachaporram e pisam metade e arrancam a outra metade. Só estragam e estorvam…
Prudência: É mesmo… que cambada de animais…
Alzira: Uma pessoa para apanhar algo de jeito tem de andar com a água pelo joelho…
Prudência: Nem me fales desse aldrabão que me comeu metade da reforma…
Alzira: Hã?
Prudência: O Passos Coelho…
Alzira: Estás mouca, mulher! Tens de ver se não tens um ninho de carriça no buraco dos ouvidos… Mas voltando ao assunto: Por vontade do meu Tonico havia mexilhão cá em casa todos os dias. Tá sempre a pedir-me para irmos à Ribeira… Mas quem cata os mexilhões e os leva para o carro sou eu sozinha porque aquele maroto senta-se na areia a apreciar o mar e aquelas tábuas de engomar dos surfistas…
Prudência: Com aquele cabelo loiro encaracolado ele parece mesmo um desses camones surfistas… Modernices!
Alzira: Não o critico; Eu própria, se não tivesse já 82 no panal, também ia para a Ribeira lavar a vista. Credo em cruz, santo nome de Jesus! Ainda hoje sinto calores ao ver aqueles rapazes tão bem apessoados…
Prudência: Convence o teu “Joquim” a fazer surfe… Assim tens uma desculpa para ires para lá espreitar…
Alzira: Ahahahahahah… Havia de ser bonito, havia! Patarata como ele está, afogava-se logo em menos de um padre-nosso… Queres-me ver viúva, ó desgraçada?
Olha uma coisa: Não te cheira a queimado?
Prudência: Ai os meus carapaus que ficaram a fritar… Lá vou ter de fazer atum outra vez para o almoço!

 

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