16 MAR 2017 |CRÓNICAS DE ESCÁRNIO E MALDIZER | VICENTE GIL

Uma Família Real Muito Peculiar
por Vicente Gil

 

Dona Maria, primeira de Portugal,
Detestava o marquês de Pombal
Culpando-o do tormento eterno
De seu pai, D. José, no Inferno,
Feito torresmo, leitão assado,
Queimadinho, esturricado,
Por ter corrido a pontapé
Os Jesuítas, gente de fé.

Um cognome lhe deram cedo,
A Pia (abrenúncio, cruzes, credo!).
Não se faz nem a hereges mortos,
Chamar-lhe vasilha onde comem os porcos!

Era fraca da mioleira, coitada,
Pelo que também era cognominada
De louca, maluquinha, doida varrida,
como entre o povo era conhecida.

Muito dada à religião
Na sua boca não entrava pão
que não fosse hóstia consagrada;
Juram que não comia mais nada,
fora um ou outro “Pão de Deus”
E “Jesuítas”, dizem os ateus,
“Barrigas de Freira” e “Orelhas de Abade”
Que lhe trazia, à sorrelfa, um frade.

Já seu filho João, o Regente,
Não tinha nada de demente;
Era um pouco apatetado,
Um panhonha, um coitado,
Gordo, de beiça caída,
E só para não mexer mais na ferida,
Omitirei que parecia um texugo
De perna curta e barrigudo.

Constava à boca pequena
Que, por não ter onde molhar a pena,
D. João tinha um amante;
Um jovem e esbelto infante
A quem chamava “meu Francisquinho”
Que prendava com filhoses e vinho,
Dinheiro, flores e muito carinho,
Fora as reais cambalhotas
Que ambos davam dentro de portas.

Casado com Carlota, a espanhola,
Que o encornava com o mariola
Do jardineiro do Ramalhão,
E com mais um batalhão
De nobres e de serviçais
Que, entre gemidos e ais,
Tratavam de dar herdeiros
Que tinham tanto de verdadeiros
Como os filhos do padre cura.
Uma vergonha, uma loucura.

Era feia como uma pescada,
Dentes podres, cara encarnada,
Coxa, baixota, mulher ruim,
De uma perversidade sem fim,
Vingativa, má como as cobras,
Provava por palavras e obras
Quanto desprezava o seu consorte,
Acabando por lhe dar a morte;
Junto foi também o médico,
Ambos com uma camada de arsénico.

D. Miguel, o absolutista,
Herdou da mãe a crista
De rufia sem remissão
E a queda para a conspiração.
Roubou o trono à sobrinha
E quis aos liberais partir a espinha.
Mas ditou o cruel fado
Que acabasse derrotado,
Banido, proscrito, exilado.

Acabe-se já com esta história,
Que me falece já a memória
E é com a alma enfastiada
Com tanta alma penada,
Tanta miséria, tanta traição,
Que digo do fundo do coração:
Oh valha-me Deus!

 

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