02 MAR 2017 |CRÓNICAS DE ESCÁRNIO E MALDIZER | VICENTE GIL

As Fantásticas Almoçaradas do Laranjal na Quinta dos Cucos, na Malveira
por Vicente Gil

 

Espalha-se a nova nas rádios,
Nos jornais e na têvê,
Gritam altifalantes nos estádios,
E mais não sei quê:
Vai haver comida e “bubida”,
Sem limite nem medida,
No almoço do pêpêdê!

Vem o profeta de Massamá,
O Montepreto e mais a prima,
Se não lhe tivesse dado coisa má,
Viria também o Duarte Lima.
Com muita pena ficou a Cristas
Por não lhe pender para o laranja,
Mas vendo as coisas bem vistas,
Mais um lugar sempre se arranja.

No dia da grande festança
É um corrupio, um vai e vem;

Com bandeiras, flores de França,
Enfeita-se a sala a preceito.
Os voluntários da Câmara, como convém,
Dão uma mãozinha, dão um jeito,
P’ró partido não gastar dinheiro,
Fixam por cima do trono
Algo que ao evento dá abono,
Uma grande foto de Sá Carneiro.

Chegam da feira vendedores,
Empreiteiros, sopeiras, doutores,
Chegam cegos e manetas.
À porta tocam trombetas
Quando chega o senhor presidente
Que, para alegria de muita gente,
Distribui abraços e beijos
E, entre presuntos e queijos,
As hostes se vão animando
E as garrafas esvaziando…

Chegam flausinas de saia curta,
Salto alto, a cheirar a murta,
Chegam os respectivos esposos,
Os amantes e os filhos garbosos,
Mais a prima da Ericeira,
Essa veio de carreira
Por o marido a ter deixado
Com a carteira em péssimo estado
E ter fugido, Deus nos acuda,
Com uma brasileira mamalhuda.

Chegam cónegos, bispos e padres,
Chegam catequistas e comadres,
Chegam pelintras e ricaços;
Mais beijos, risos e abraços;
E como não podia deixar de ser,
O Muxacoiso tinha de aparecer!

Há jotinhas por todos os lados,
Muito sérios e empertigados,
A tratar da vidinha futura,
Que a competição é forte e dura
E há que agitar bandeiras,
Dar graxa de todas as maneiras
Aos seus amados chefinhos
Que tratam com mil carinhos,
Hossanas, te deuns e hinos…
Que riqueza de democratas
Que mais parecem suricatas.

Velhotes é o que não falta,
Há magotes desta malta
Que veio a trinta à hora,
Como burricos a puxar à nora,
Em Mercedes com trinta anos,
São uns pândegos estes fulanos.
Não é para ser maldizente
Mas, assim de repente,
Pareceu-me estar perante
Um congresso da terceira idade,
E só mesmo por caridade
Não me alongo neste assunto;
Não se goza com defunto,
Há que respeitar este povo
E eu próprio não vou p’ra novo.

Eis que num atroar medonho,
Como se se tratasse de um sonho,
Montados em máquinas infernais,
Trotinetas e coisas que tais,
Entram motards de preto vestidos,
Cabedal, cabelos compridos,
Emblemas de águias, caveiras e cobras,
São da Alcainça os Abobras.

Foi grande a comoção
Quando mesmo a meio da função
Um sem pescoço do Milharado,
Vermelho, redondo, opado,
Com um brado aterrador
E gritando por Nosso Senhor
Ia tendo uma indigestão
De chouriças, gambas e leitão,
Quase se finando o animal,
Acabando dois dias no hospital,
Para onde foi de charola,
Rebentou, partiu a mola.

Os beatos da Encarnação
Enfardam fiambre sem pão,
O mesmo com os velhacos da Achada,
De Monte Bom e Pedra Amassada;
Enchem a búzia de coisa boa,
Logo imitados pelos de Fonte Boa.
Querem lá saber dos discursos
Comem que nem uns ursos.
E dizia um da Avessada:
Ovelha que berra, perde a bocada.

O Ti Zé Manuel Pombo,
Noventa anos no lombo,
Foi levado à almoçarada,
Mas não lhe disseram nada
Ao que ia, o que era aquilo.
E ao cruzar-se com o Zé Grilo,
E porque era surdo que nem um penedo,
Disse muito alto e sem medo:
“Aquele não é o aldrabão,
Que me anda a roubar o pão,
A minguar na pensão?”
Parou tudo, fez-se silêncio,
E se não tivesse sido o Vicêncio
Teria dado ali um enxugo
A esse Coelho de entrudo,
Ao profeta de Massamá
Que se acha rei, marajá.

Acode a família, envergonhada,
Seguranças e mais rapaziada,
Toca a fanfarra, segue o sermão,
E com o velhote deitado no chão
Tudo logo se recompôs
Serviram gambas com arroz
Vinho branco à discrição
Presunto, fois-grass e pão
Que esta malta de barriga cheia
Às provocações não liga meia,
Quer é a mula encher,
Rir comer e beber.

Gostei muito dos assessores,
Que pareciam senhores doutores,
De fatinho e camisa branca,
Como porqueiros de Vila Franca,
Depois de dois copitos de tinto,
Whisky, gin e absinto,
Esqueceram a compostura,
E isto é verdade pura,
E mostraram aquilo que são:
Capachitos do patrão
Sem estaleca nem valor
Uns cepos, que horror.
Cantavam o fado, faziam o pino,
Praguejavam sem freio nem tino,
E amaldiçoavam os vermelhos,
Esquerdalhos, esses fedelhos,
Mandando-os para Cuba e Coreia,
Que o comunismo é coisa feia,
E davam vivas ao seu amado
Pedrocas, o retornado.

Saiu tudo muito animado
Bem comido e bem regado
Com a certeza na vitória
Honra, poder e glória
Porque maior que o laranjal
Não há nada em Portugal.

 

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