17 Jul 2017 | Crónica | Jorge C Ferreira

Crónica de Jorge C Ferreira
Estar e não estar

 

Estou, quando escrevo este texto, num verdadeiro estado de passagem. Não estou já de onde vim e ainda não me sinto totalmente onde estou. É uma estranha sensação. Um estranho modo de estar. Não sei que língua falo nem que língua me falam. Estou num estranho limbo. Num purgatório de expiar maneiras de estar e de fazer.

Recebo mensagens e fotos de lá e de cá. Recebo abraços verdadeiros e virtuais. Beijos de todas as cores. Um arco-íris de sentimentos. Gostava de estar no Reino, gosto de estar nesta República. Divido-me e não me sinto. Sou as metades da romã, cortadas por uma espada afiada, que se riem uma para a outra com laivos de luxúria. Esse vermelho sangue que encanta corpos e desencadeia desejos. O que eu amo os bagos de romã…!

Falta-me paciência para ver televisão. Há fulanos que me aborrecem solenemente. O cinzentismo e uma modorra que mata a esperança. Estive quase dois meses e meio fora, oiço o debate do “estado da nação” e parece que estou a ver a continuação do último que vi antes de me ir embora. Isto cansa. Actualizem-se! Modernidade exige-se. Para além das tragédias, dos roubos, da tropa fandanga, nada de novo.

Tenho uma nova estante por montar e muitos livros em montes e montinhos, tudo numa organizada desorganização. Livros de amigas e amigos. Livros de outros tempos. Livros de vidas passadas. A biblioteca necessita e pede-me tempo para ser organizada. Livros por ler gritam por mim. Uma luta que tem de ser travada a tempo inteiro. Uma decisão que tem de ser tomada.

Não consigo organizar-me. Há uma ansiedade que  me percorre. Coisas por resolver. Coisas que não sei resolver. As malas olham para mim numa ânsia de viagem. Uma ânsia que partilho. Por vezes penso que é doença. Penso que é doença boa. Nunca falarei disto a nenhum médico. Receitam coisas desnecessárias. Exames esquisitos. Não, nessa não caio. Tenho de viver com esta ansiedade.

Cansam-me, cada vez mais, os aeroportos. Os longos corredores, as revistas inesperadas, as máquinas de nos verem quase todos nus. Cães a cheirarem as nossas malas. Apesar de tudo, de repente, um estrondo imenso e vidas em farrapos. Estou farto de máquinas de raios e de ser apalpado sem ter direito a escolher quem me apalpa.

No entanto há que partir. E para partir temos de nos sujeitar a estas coisas. Qualquer dia vou passar a viajar no meu quarto. Correr o mundo todo sem sair à rua. Sei de gente que é feliz assim. Sei de gente que viajou muito mais que eu deste modo. Uma capacidade de que tenho uma inveja boa.

Esta minha mania dos afectos. De ter que sentir as pessoas. De não gostar de beijos a fingir e de abraços de circunstância. A necessidade de sentir os cheiros e degustar os modos de vida. Esse estar e sentir que se está. Essa sofreguidão de conhecer.

A tentação da imensidade do mar. De me sentir esquecido no meio de muita gente. Ser um ponto num Oceano e querer estar perdido. Outro desejo imenso que não consigo controlar.

«Pela conversa, estou a ver que não tarda nada estás de novo a partir!»

Fala da Isaurinda.

«Sabes tudo da minha vida. Sabes que ainda falta algum tempo.»

Respondo.

Eu sei. Isso é se não aparecer nada de especial entretanto. Conheço-te bem.»

Assim finaliza Isaurinda. Conversa e desaparece, o pano na mão. Assim finalizamos nós.

 

Jorge C Ferreira Jul/2017(130)

 

 

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