05 Jun 2017 | Crónica | Jorge C Ferreira

Crónica de Jorge C Ferreira
Procurar o belo

 

Procurar o belo e com ele tentar contruir o futuro. A beleza a guiar-nos por mundos de enorme sensibilidade. Sermos e tentarmos saber quem somos. Uma aventura que nos é acometida. Que nos deve mobilizar. Um desejo que nos pode marcar para sempre. Procurar o diferente. Tentar achar o que nos enche de prazer. Uma pedra, um cartão, uma folha de papel, tudo em bruto, um nada e de repente tudo. A arte a nascer através de mãos sublimes.

Uma mulher que sabe a nuvens. Uma sedosa harmonia. O branco e o branco. Um corpo inatingível. Não se sabe como nasceu, de onde veio, quem a pariu. Volúvel a dança com que fantasia o seu ser. Uma enorme tentação onde ninguém se atreve a tocar. Nívea e pura. Eternamente pura. Uma mulher de adorar.

Um homem vestido de neve. Musculado. O corpo do discóbolo. Um cabelo de anjo. Uma nudez atapetada. Um coração de menino. Chega e nada diz. Deixa-se amar e sobe novamente, num voo de ternas asas, a um estádio que ninguém conhece. Alguns dizem que não era homem. Que um homem não se porta assim. Mas era. Foi provado pela maioria. Era um Ser especial. Assim ficou registado.

Dos eternos bailados saem figuras de quem não conseguimos dizer o quanto as amamos. Porque voam e têm no corpo as  músicas que só os eleitos conseguem escutar. Criam figuras que nos endoidecem as memórias e nos fazem acreditar no que nunca vimos. Bailarinas e bailarinos que dançam no meu corpo. Os fatos que são a sua pele. A caixa de música que a minha Mãe me deixou.

Beleza é um beijo roubado numa avenida no meio de uma multidão. Beleza é gravar, com uma navalha, um coração numa árvore e escrever as iniciais dos amantes. Beleza é saber de cor o banco do jardim onde demos o primeiro beijo. Beleza é termos quem nos abrace, num abraço apertado. Um abraço de vida. Só os patos que habitam naquele jardim sabem das histórias todo o seu conteúdo. Nem todos tomaram banho com eles no seu lago.

Procurar o belo na genialidade da pintora que nos inventa uma nova vida e nos faz parecer o que não sabemos que somos. Os génios que vivem no mesmo território que nós e nos surpreendem a cada dia. Muita gente acha que não são daqui. Que são seres de outros mundos. Mundos desconhecidos onde já se encontrou o futuro através do belo. Mas não. Todas as análises feitas mostram que são nossos irmãos, irmãs, companheiros e companheiras de caminho. Chamam-lhe artistas. Um nome pobre para o tanto que dão.

Por aqui podia continuar, até esgotar todas as artes que nos fascinam. Quando estou a escrever isto alguém me lembra dos poetas repentistas e analfabetos. Que dom é aquele? Quanta beleza vive naqueles rostos marcados pela vida dura. Aqueles que, apesar das amarguras, teimam em procurar o belo. Vamos seguir o caminho das luzes. A imensa luminescência que gravita em torno de determinados seres.

Será pelo belo que conseguiremos chegar ao novo.

«Tu, para a tua mãezinha, eras o ser mais belo que existia. Ela tinha achado o belo com muita facilidade. Tu andas para aí numa procura que te cansa»

Voz da Isaurinda.

«És capaz de ter razão Isaurinda o belo está sempre perto de nós. Nós é que não sabemos olhar.»

Respondo.

Fim da conversa.

Jorge C Ferreira Jun/2017(124)(Reino de Valência)

 

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