27 MAR 2017 | Crónica | Jorge C Ferreira

Crónica de Jorge C Ferreira
“Palavras, palavras, palavras…”

 

A cabeça num rodopio. Uma agonia à flor da boca. Um mal estar sem razão. Palavras, palavras, palavras e uma maneira incómoda de não estar.

Não sei o que me atormenta. Acho que sou eu o meu tormento. Coisas que em mim nascem e morrem. Quem me compreende? Quem me segura a razão de ser e estar?

Ando tonto, de tanta coisa. Tenho de fechar os ouvidos e ir viver para um quarto sem luz. Tudo me apoquenta. Começo a ser uma eterna insatisfação. Vejo luzes numa sala apagada. Vendi todos os candeeiros num leilão rápido.

Sinto falta da cidade grande. Dos caminhos que já alcatroaram. Da minha antiga casa. Da casa derrubada. Da rua de todos os jogos e todas as corridas. Da quinta grande. Dos guelas e dos abafadores. Dos bonecos da bola. De jogar à palmadinha. De ganhar tostões a tirar alinhavos.

Desço a minha nova rua num repente. Vejo o mar e dá-me vontade de chorar. Percorro o paredão, volto, tomo um café e uma nova agonia me trepa o corpo. Que coisa rara está a nascer em mim? Palavras, palavras, palavras e um risco frio que me atravessa o corpo.

O mar segue-me. É um vício muito antigo. Os barcos fascinam-me, as ondas fazem-me sonhar com terras distantes. Talvez por isso viva tão perto dele. Sinto-lhe o cheiro, ouço-lhe as zangas. Quando os barcos silvam ao nevoeiro, penso no nosso rei menino. Acho que sou do mar.

Esta agonia que não me larga. Um vómito que nunca o chega a ser. Uma dor incompleta. Uma errância de sentires. Uma velha sem dentes que se ri para mim de boca aberta e um rosário na mão. Quantas rezas! Palavras, palavras, palavras e uma vontade imensa de viver.

Leio duas páginas de um livro e perco-me. Volto atrás, releio e sinto o calor das letras. Um escritor meu. Um companheiro de quem gosto. Uma dedicatória em letra redonda. Palavras, palavras, palavras num rio que quero descobrir.

Lembro de ter nadado em represas de rios livres e puros. Águas de corpos nus. Uma transparência de água doce e as pedras redondas que nos acordavam os pés. Ali nos entregávamos a jogos ousados. Só os peixes, que nunca dormem, nos espiavam. Um verde imenso nas margens desses rios encantados. Os corpos cada vez mais livres.

Acho que estou a fazer o meu “Brexit”. Só para ficar na moda. Estou a sair de mim numa súbita vontade. Estou a tentar esvaziar-me. Não sei se vou ficar outro. Espero ficar melhor. Palavras, palavras, palavras e um corpo a sair do  meu corpo.

Será que acabar é isto? Será que estou perto do fim? Será que estou cada vez mais longe de mim? Será? Só sei que este vazio me está a enlouquecer! Falta-me uma vassoura para varrer estas coisas.

«Olha, tu vai descansar e é já! Chega de estares para aí a matraquear maluquices. A mim é que tu me pões doida.»

Isaurinda em tom autoritário.

«Ainda tenho umas coisas para acabar…»

Respondo timidamente.

«Hoje não escreves mais nada e vais já à minha frente. Andor!»

De novo a Isaurinda. Quase exasperada.

Não lhe disse mais nada. Fui. Ela atrás de mim, o pano na mão.

Palavras, palavras, palavras e o corpo por fim a descansar.

Jorge C Ferreira Abr/2017(115)

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