24 ABR 2017 | Crónica | Jorge C Ferreira

Crónica de Jorge C Ferreira
“Os Livros”

 

A música de fundo é o barulho do mar. Ali, no fundo do meu pátio, onde é muito mais forte. É ali que a gosto de escutar, à noite, quando tudo já dorme.

Todas as luzes apagadas. Todas menos os candeeiros solares que a Isabel plantou no canteiro que nos rodeia.

«Isso também é uma coisa linda. Em vez de terem ali uma salsa ou outras ervas,  têm candeeiros que se acendem sozinhos.»

Interrompe-me a Isaurinda, com ar de gozo.

Digo-lhe que não temos jeito para essas coisas de hortas, terras e plantas.

«É, tu só para leres esses livros com tipos com cara de loucos na capa e escreveres essas coisas esquisitas, de resto…»

Responde-me Isaurinda de imediato.

«Olha que já escrevi coisas que gostaste.»

Digo-lhe.

«É verdade, mas ultimamente andas a sair um pouco dos carris.»

Diz-me de imediato Isaurinda.

«Hoje estás com um bocadinho de mau feitio.»

Digo-lhe.

«Achas? Não digo mais nada. Já cá não está quem falou.»

Isaurinda, de novo, que parte em direcção a outra parte da casa.

Confesso que fiquei um pouco baralhado com esta conversa. Voltei a ler tudo o que tinha escrito em voz alta. Emendo uma outra coisa e não toco em mais nada. Estas discussões são um jogo a que já me vou habituando.

Desde o sofá branco onde escrevo, o “tablet” em cima de uma mesa, também branca, olho para os montes de livros que vão crescendo sobre a cómoda à minha frente. Quatro montes cada um com a sua razão de ser. Coisas lidas ainda recentemente, coisas para ler, leituras em curso. Sobre o móvel, quase ao meu lado, mais três montes. Outro significado. Livros a que penso voltar. Junto a mim, dois, três livros para leitura imediata.

Isaurinda acha que tudo aquilo não faz sentido e também não compreende porque não escrevo na biblioteca. Ela sabe que as estantes estão cheias. Vejo-a, muitas vezes, a olhar para tudo aquilo. Ela que, apesar de não saber ler, trata todos os livros com carinho.

Já me disse várias vezes:

«Tens ali secretária, cadeira, mesa, porque estás aí metido nesse canto?»

Quando lhe digo que é aqui que me sinto confortável, que  neste lugar tenho outra luz e um ruído de fundo que adoro. Abana a cabeça e vai, um desengonçado andar.

Os livros tornam-se, algumas vezes, uma obsessão. Passar por uma livraria quase uma obrigatoriedade diária, tanta coisa para ver:

– Os livros dos amigos e das amigas;

– Os livros dos escritores malditos, que adoro;

– A poesia, a eterna namorada, sempre por ler;

– Os que já ganharam o estatuto de clássicos;

– Os só para consulta;

– Os oferecidos;

Os que gritam muito;

Etc, etc, etc…

É uma vida inteira que vejo e revejo naquela imensidão de folhas impressas. Fases diferentes de estar de ser. Vidas passadas e recordações nem sempre boas. Também fases de encantamento.

Já pensei organizar os meus livros todos por esse critério. Ou de forma mais simples, fases de amor e desamor. Falta-me tempo. O importante, para mim, é saber onde está um livro que por vezes me chama. Uma voz que não sei de onde vem. Um estranho falar. Uma repetitiva aventura.

«Olha lá, quando te fores embora, tenho de limpar aquela livralhada toda, não é?»

Foi a Isaurinda que voltou.

«Não chames livralhada, sabes que não gosto.»

Respondo.

«Está bem, desculpa. Estás muito sensível hoje.»

De novo Isaurinda.

«É um estado muito habitual em mim, tu sabes.»

Minha fala.

«Sei, coisas de filho e neto único…»

Fala nova de Isaurinda.

«Sim, hoje estás bonita, é para limpar tudo s.f.f.»

Digo.

«Assim farei e não se fala mais nisso.»

Isaurinda que vai, o pano na mão.

Acho que ela está assim por eu estar quase de partida.

Pego num livro e ponho-me a ler.

Jorge C Ferreira Abr/2017(118)

 

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