29 MAI 2017 | Crónica | Jorge C Ferreira

Crónica de Jorge C Ferreira
Os Falsos Profetas

 

Uma convulsa agonia nos entristece o olhar. As mortes sem sentido. As vítimas inocentes. A liberdade a andar para trás. O fanatismo. Não, não é religião! É loucura, demência, gente que se perdeu numa esquina da vida. Depois há os manipuladores, os falsos profetas. Os malfeitores que vendem armas a quem pagar.

Não há bíblias, nem Alcorões, nem qualquer livro de profecias que salvem esta bestialidade. Estas falsas tentações. Não há mil virgens em nenhum paraíso. Não conheço nenhum paraíso. Conheço muito mundo e conheço muita contradição. Sei da outra vertente do belo. Sei do sofrimento. Já cheirei a morte. Bateu-me uma vez à porta, sorrateira, sorridente, a besta!

Deixemos o “Je suis” isto e aquilo. Vamos enfrentar o medo. Saltar os gradeamentos das proibições. Dizer aos meninos que governam este mundo que estamos fartos deles. Um presidente não pode falar ao País pelo twitter ou pelo facebook. Tem de falar com os seus cidadão olhos nos olhos. Chega de palhaçadas. Eu posso escrever no facebook, só me represento a mim e não me movem ocultas ambições. Eles não. Eles têm responsabilidades. Têm de ter outra forma de estar. Vamos obrigá-los a responder nos lugares certos.

Enquanto rebentam bombas na Europa o bronco presidente de gravata colorido até aos joelhos, passeia-se pelo velho continente. A Crista pintada, a ignorância mal acabada. Uma criatura rara. Uma perigosa criatura. Uma desmascarada criatura de que não sabemos, ainda, a violência do estertor.

O “Daesh”, esse cancro de difícil cura. Quem comanda este polvo, quem o dirige, quem o alimenta. Estamos a falar de bandos, de bandidos, de actos de banditismo puro e duro. Mercenários e cabeças ocas, dirigidos por gente oculta, com planos bem traçados.

Quem criou estes ghettos. Estas terras de ninguém. Onde salteadores e matadores profissionais se passeiam impunemente. Quantos santuários foram criados para esta gente? Terras sem fronteiras e tanta gente a morrer neste “Mare Nostrum”. O negócio dos passadores. Assassinos de gente que foge sem nada.

Tenho na estante, bem guardado, o livro de orações que a minha Mãe usou para me ensinar a rezar. Já deixei de rezar há muitos anos. Guardo apenas o livro. A lembrança do acto nocturno em que, ajoelhados junto à minha cama, pedíamos por todos.

Foi Manchester, foram crianças, gritos, sangue e estilhaços. Foram vidas estraçalhadas. Foi a agonia. Não há causa que justifique estes actos de terrorismo. Nada justifica a morte de ninguém. A vida é um bem supremo. É a nossa curta passagem por esta dimensão.

Vivemos num mundo perigoso. Numa falsa corrida sem sentido. A vida merece que lhe demos mais. Temos o direito de exigir sermos livres. Ser livre é também enfrentar todos os medos e continuar a caminhar por nós e pelos que sucumbiram à barbárie.

A liberdade temos de ser nós a construí-la. Começando por expulsar os “vendilhões do templo”. Os meninos de coro que querem mandar em nós. Temos de ser actuantes. Assertivos. Aprender a enfrentar o medo. Sair para as avenidas e saborear o perfume das flores. Dar um beijo sentado num banco de jardim. Coisas simples e belas. Procurar o momento de felicidade.

A Isaurinda estava aterrorizada. Tentei acalmá-la. Disse-me com voz muito séria: «acho que vou voltar para o Fogo. Tenho menos medo do vulcão, que destes loucos.»

É com a voz de Isaurinda que acabamos!

Jorge C Ferreira Mai/2017(123)(Reino de Valência

 

Pub

Achou este artigo interessante, partilhe-o com os seus amigos!

VISITE TAMBÉM A PRIMEIRA PÁGINA DO JORNAL DE MAFRA

Partilhe com os seus amigos!