03 Jul 2017 | Crónica | Jorge C Ferreira

Crónica de Jorge C Ferreira
Os Anjos

 

Hoje apetece-me falar de asas e voos. Das incríveis aventuras. Das anunciadas maravilhas. Das asas dos anjos e dos homens e mulheres que se arriscam a voar. Sentir o vento da deslocação das celestiais criaturas e nunca lhes conseguir tocar.

Saber do desastrado voo de Ícaro e do perigo de voar perto do sol. Ver todas as iluminuras, todos os frescos e adormecer acordado no chão da Capela Sistina a olhar o tecto. Apanhar uma boleia do anjo errado e acordar num mundo triste.

Voar. Voar como voam os poetas, as poetisas. Os que conseguem iluminar as mentes mais apagadas. Uma palavra, uma meia frase, um verso, um poema, um livro. Depois há a palavra que sempre falta. O voo que persiste em não ganhar altura. O não conseguir subir ao patamar do sonho.

Porque tudo não passa de um sonho. De uma imensa euforia. De um calmo bater de asas. Da suavidade de um  voo aveludado. Do poder tocar a vida sem medo. Uma ilusão que nos faz crescer. A vida a querer fugir. Onde estamos? É a pergunta que se segue.

Saber dos Anjos todos os segredos. Saber do voar todos os truques. Saber dos desejos todas as vontades e renascer cada dia, pronto a voar de novo.

«Se eu fosse poetisa fazia-te um poema.» – disse-me ela um dia – Uma figura que não conseguia ver e apalpar. Uma desmaterializada criatura. E, no entanto, amava-a. Só sabia do seu cheiro, do seu falar, do seu bater de asas. Sim, ela voava. Por vezes tinha a sensação que algo me tocava e crescia em mim uma quase loucura.

Nunca recebi nenhum poema. Nunca tive a certeza que algum anjo tivesse dormido a meu lado. Ter cara de anjo é uma coisa, ser anjo é outra completamente diferente. Mulheres belas são mulheres belas. Apolos são Apolos. Anjos são evanescentes seres que a tudo se sobrepõem.

Dizem-me que temos um Anjo da Guarda. Alguém que zela por nós. Que nos guia de mão dada pelos  perigos de todas as vidas. Não sei. Sei que já me ajudaram. Sei de mãos invisíveis e sei também, e muito mais, das humanas mãos. Das mãos que estão sempre presentes sem ser necessário pedir ajuda. Serão anjos? Bênçãos, são!

Fala-me então de ti, anjo meu. Diz-me do teu voar, do teu sentir. De tudo o que já fizeste por mim. Antes de me ir embora quero um relatório detalhado de todo o trabalho feito. Temos de ter uma conversa de pé de orelha. Uma coisa só entre nós, sem asas a bater, sem largos voos. Uma coisa mais terrena.

Desconheço a forma  da tua escrita. Não sei sobre e com que escreves. Ignoro a língua em que te expressas. Dizem que a linguagem dos anjos é um cântico permanente. Como vais passar isso a escrito? Estou ansioso por receber algo teu.

Sei de anjos que tocam trompas e anunciam novas verdades. Sei de alguns dos seus cânticos. Conheço o bater das suas asas. Nada mais.

Claro que tudo isto é fruto da minha imaginação. Da minha vontade de conhecer outros segredos. Uma procura que sempre me inquietou.

«Ouve lá, não te bastam as pessoas, agora também te andas a meter com os Anjos?»

Voz inquieta da Isaurinda.

«Sabes como sou. Já me conheces há muito tempo. Achas que é agora que vou mudar?»

Fala minha.

«Sei, claro que sei, e também sei que já te aleijaste algumas vezes por seres abelhudo. Já é tempo de ganhares juízo.»

Diz Isaurinda e não admite resposta

FIM

Jorge C Ferreira Jul/2017(128)(Reino de Valência

 

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