08 MAI 2017 | Crónica | Jorge C Ferreira

Crónica de Jorge C Ferreira
O outro escrever

 

Uma lenta agonia de suadas nuvens me invade. De repente todo o céu fica de um azul encanto. Uma luz que nos preenche. Mais um dia que nos ilumina. Sou eu e a minha varanda. Uma conversa desacertada. Dos desacertos nascem crianças escritas com letras  aprendidas à  pressa. Um novo abecedário ainda por inventar. Um poema que nasce solitário. Um parto dolorido. Suado e gritado. Uma sofrida forma de escrever. Os dedos a fugirem de mim.

A vida a esgotar-se. Uma perna que nos dói. A enorme costura da cirurgia a dar sinal. Um sufoco que nos estrangula e, apesar de tudo, continuamos. As teclas gastas. Sabemos assim das letras que usamos mais. Algumas são um desaparecido desenho. Vamos apagando o que escrevemos com mãos de saudade. Este teclado está quase a morrer. Não sei como vou arranjar outro que me ame tanto. Sinto que ele já me conhece e também não quer partir.

Escrever, escrever. Um vício sem descanso. Uma abertura para o mundo. As mãos cansadas. As vidas inventadas. As músicas desconhecidas. Canta uma mulher do alto de um prédio. Canta uma ária de uma ópera conhecida. Param alguns passantes. Outros seguem, vão ligados a outras músicas. Umas coisas que lhes tapam os ouvidos. Não ouvem nada. Nunca saberão dos ruídos do mundo. Nunca ouvirão um gato se este lhes miar a pedir ajuda.

Muitos destinos na minha imaginação. Mesmo quando mudo de lugar esta obsessão nunca me larga. Sei que existe o lugar que procuro. Não sei dele o roteiro todo. Direi mesmo que dele nada sei. É um sonho por acontecer. Uma liberdade poética. Um espaço sem fim. Uma música de anjos desconhecidos.

Não sei se encontrarei esse lugar. Sempre adorei a utopia. As coisas comigo, mesmo as mais simples, sempre foram complicadas. Não, eu não sou nada complicado. Gosto das coisas no seu lugar e sou incapaz de me esquecer do que caminha ao meu lado. Sou um caminheiro. Por vezes um quase eremita. Tenho uma cabana escondida num lugar que não revelo a ninguém. Se um dia morrer por lá, não sei se me vão encontrar. Serão os lobos que me irão encontrar, é quase certo

Sou amante do fim do dia. Do tempo em que as luzes se misturam e as músicas ganham outra claridade. Sons saídos do muito pouco. Vozes vindas de muito longe. A mulher que cantava no cimo do prédio acabou a sua actuação. Canta muito lá no alto para não lhe darem moedas. Canta por prazer. Uma infindável ária. Há quem lhe gabe a voz. Há um sujeito, já mais velho, que limpa as lágrimas a um lenço de algodão egípcio. Os das outras músicas coladas aos ouvidos continuam a passar.

Acende-se a noite. Na minha esplanada só se ouve o barulho do mar. Os pássaros foram dormir. Os peixes estão de vigília. Mulheres de saltos altos acrescentam altura aos seus longos cabelos. Está ainda algum fresco pela noite. Sabe bem o aconchego de uma camisola e uma echarpe. Um jantar pequeno mas demorado. Mais tempo a olhar o mar do que a comer. A conversa que é sempre outra. Porque é outra a vida.

Diferentes cenários para diferentes sons e alegrias. Uma maneira de afugentar a tristeza. Viver até ao fim.

Tenho telefonado todos os dias à Isaurinda. Disse-me que está a tratar dos livros com todo o carinho. Envia Beijos.

Jorge C Ferreira Mai/2017(120)(Reino de Valência)

 

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